Diariamente, somos bombardeados por informações vindas de todos os lados. Recebemos notícias, indicadores, análises, e prognósticos que chegam dos cinco continentes. Apesar da enormidade de informações, quase sempre nos vemos incapazes de compreender o que ocorre. Este blog pretende ser uma contribuição para entender esse mundo complexo. É claro, não tem a pretensão de ser um oráculo, que dê conta de tudo o que ocorre no mundo, mas uma busca incessante de entender o que acontece à nossa volta.

domingo, 10 de novembro de 2013

Negociações entre Estados Unidos e Irã: há possibilidade de acordo?

Durante as últimas semanas, temos visto um intenso esforço diplomático para que se chegue a um acordo entre Irã, Estados Unidos, União Europeia, Rússia e Alemanha a respeito do Programa Nuclear Iraniano. Certamente, os dois atores mais envolvidos são os Estados Unidos e o Irã, países que são adversários há décadas, desde que a Revolução de 1979 derrubou o Xá Rheza Pahlevi, aliado de Washington.
Encontros tensos, vazamentos de informações, uma movimentação intensa de oficiais diplomáticos - tudo deixa transparecer que a negociação não será fácil.
Porém, há alguma possibilidade dessa negociação dar certo?


Como sempre acontece com negociações internacionais, é difícil saber ao certo o que está ocorrendo a portas fechadas e se o que é divulgado para a imprensa é real ou apenas um modo encontrado para passar mensagens a adversários e a alguns aliados. No entanto, pelo que ocorre nos Estados Unidos e no Irã, podemos tentar inferir algumas possibilidades de ações por parte dos envolvidos.
O Irã tem assumido uma postura bastante diferente desde que Hasan Rohani assumiu a presidência do país, sucedendo Mahmoud Ahmadinejad, que era persona non grata nos meios diplomáticos internacionais por sua postura belicosa e discursos inflamados (Ahmadinejad chegou, inclusive, a negar o Holocausto). Rohani assumiu a presidência do Irã em meio a uma grave crise econômica, advinda das sanções internacionais impostas por Estados Unidos, União Europeia e ONU.
Desde 2006, a ONU aprovou resoluções condenando o enriquecimento de Urânio em usinas nucleares iranianas. Porém, autoridades do país dizem que o programa nuclear é pacífico e o enriquecimento de Urânio se deve a necessidades energéticas. Como esse procedimento pode levar à construção de bombas nucleares, as potências europeias e Estados Unidos pressionam para que o Irã ponha fim ao programa ou o submeta a uma rigorosa inspeção por parte da Agência Internacional de Energia Atômica - AIEA. O Irã nega as acusações de que seu programa tem fins militares, afirmando que se mantém comprometido com o Tratado de Não-Proliferação de Armas Atômicas.
As sanções foram aprovadas e desde então o Irã vem passando por inúmeras dificuldades econômicas. A venda de petróleo, que perfaz cerca de 50% da receita do país, foi duramente afetada. O Irã possui cerca de 9% das reservas de petróleo do mundo.
As sanções da União Europeia são especialmente danosas ao Irã porque como o comércio e outros negócios com os Estados Unidos se mantêm restritos desde 1979, a União Europeia tem sido um dos principais parceiros econômicos do Irã.
Em 2012, a União Europeia baniu a compra de petróleo iraniano. Os europeus compravam 20% da produção iraniana. Entre 2011 e 2013, a exportação de petróleo iraniano caiu de 2,2 milhões de barris por dia para 700 mil. Logo, essa sanção acertou em cheio a economia do país.
Além disso, há as sanções financeiras, que impõem restrições à circulação de divisas entre o Irã e países estrangeiros. Em janeiro de 2012, a União Europeia congelou todos os ativos do Banco Central Iraniano em instituições financeiras dos 27 Estados membros. Já os Estados Unidos, impõem restrições a empresas que têm relações com o Irã, piorando ainda mais a situação do país.
Com isso, nos últimos anos, a economia iraniana vem decrescendo significativamente, muitos negócios pequenos e médios estão à beira da falência e o desemprego cresceu, especialmente entre os jovens.
Assim, é bastante provável que Rohani busque um acordo. Se a situação permanecer nesse ritmo, analistas avaliam que a economia do Irã pode entrar em colapso dentro de alguns meses.
Na verdade, Rohani foi eleito com um discurso político que afirmava que tiraria o Irã do isolamento diplomático criado por Ahmadinejad. Para os apoiadores de Rohani, o Irã deve adotar algumas medidas políticas demandadas pelos Estados Unidos e União Europeia. Porém, ele encontrará uma feroz resistência interna se resolver adotar um tom mais conciliatório com Washington.

Por outro lado, parece que o governo norte-americano anseia por uma solução diplomática rápida. Há uma pressão para que o Presidente Barack Obama não permita que o Irã tenha armas nucleares. A principal voz nesse sentido é do Primeiro Ministro de Israel Bejnamin Netanyahu, que disse estar disposto a atacar o Irã, sozinho se necessário (ou seja, mesmo sem o aval dos Estados Unidos).
Isso seria a pior coisa a acontecer para a estratégia de longo prazo dos Estados Unidos no Oriente Médio e no Golfo Pérsico. Os Estados Unidos tentam nesse momento estabilizar a região sem o recurso militar. Há uma pressão interna para que Obama não envolva os Estados Unidos em uma nova guerra no Golfo Pérsico, depois dos efeitos catastróficos da guerra do Iraque (Ver 10 anos da Guerra do Iraque, parte 1 e parte 2). Assim, se Israel atacar o Irã e a guerra adentrar um estágio perigoso (com o envolvimento de outros países), os Estados Unidos deverão agir. Para muitos nos Estados Unidos, esse seria um cenário catastrófico, que criaria condições econômicas devastadoras para a região, o que, por sua vez, prejudicaria a já combalida economia norte-americana.

Por conta disso, talvez Estados Unidos e Irã cheguem a um acordo. Embora as negociações sejam difíceis, há possibilidade de que uma solução de compromisso seja alcançada. Já foram propostas nos últimos dias algumas saídas, como o fornecimento de Urânio por países estrangeiros, em troca da não utilização de certos equipamentos para enriquecimento no próprio Irã. Possivelmente, negociações sobre as intenções militares dos norte-americanos na região devem estar ocorrendo, pois o Irã não desejaria abdicar de um possível programa nuclear militar sem garantias de que o país não seria atacado pelos Estados Unidos.
Por fim, não é certo que o acordo seja alcançado, mas os dois lados anseiam isso. A dificuldade reside nos limites que cada um tem por trás de si para aceitar certas condições. Tanto Irã quanto Estados Unidos não querem que a questão degenere em confronto militar, mas também não podem aceitar qualquer condição.

Ver também:

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O que está acontecendo na Líbia?

Atualizado em 16 de novembro de 2013 (19:30)

Nesta semana, acompanhamos eventos na Líbia que demonstram o quão conturbado está o ambiente no país. Imagens de pessoas mortas e feridas correram o mundo, após uma manifestação de rua na capital Trípoli ter degenerado em violência e deixado um saldo de cerca de 40 mortos.
A marcha pelas ruas da capital era um protesto contra a presença de milícias em Trípoli. O Primeiro-Ministro, Ali Zeidan, ordenou a retirada de todos os grupos armados da capital. Porém, as milícias não obedeceram. Durante a marcha, no último dia 15 de novembro, grupos armados atiraram contra os manifestantes. A violência se espalhou no dia seguinte, quando tropas rivais se confrontaram nas ruas de Trípoli.
Mas afinal, o que está acontecendo na Líbia?



A Líbia passa por um momento de profunda instabilidade após a derrubada do ditador Muammar al-Qadafi em 2011. Qadafi governava a Líbia desde 1969, após um golpe militar que derrubou o rei Idris As-Sanusi.
A Líbia é um país que reúne diferentes regiões e que se configurou territorialmente no período de domínio otomano. A história da região é antiquíssima. Ao longo dos séculos foi dominada por fenícios, gregos, romanos, vândalos, bizantinos, até ser ocupada pelos árabes que se expandiam pelo Norte da África no ano de 643 D.C.
O Império Otomano ocupou a região no século XVI e criou a província da Líbia, através da reunião das províncias de Tripolitânia, Cirenaica e Fezzan. A região permaneceu sob domínio otomano por vários séculos, mas em diferentes períodos possuiu grande autonomia.
Em 1911-1912 a Líbia foi ocupada pela Itália. Houve anos de insurgência, mas os grupos rebeldes foram sufocados. No entanto, em 1942, em meio à Segunda Guerra Mundial, as tropas aliadas expulsaram os italianos. A Líbia foi ocupada, então, pelos Aliados - a França passou a administrar Fezzan, enquanto os britânicos passaram a administrar Tripolitânia e Cirenaica.
A Líbia obteve sua independência em 1951, sob o rei Idris. Porém, a influência da Europa e dos Estados Unidos permaneceu de forma proeminente. A Líbia é um país que possui uma grande quantidade de petróleo, o que atiçou (e ainda atiça) a cobiça das grandes potências. Tal situação gerava descontentamento interno, principalmente entre os militares.
Assim, em 1969, um golpe militar depôs o rei. O coronel Muammar al-Qadafi, com apenas 27 anos, assumiu o poder. Seguiu-se um regime militar ditatorial, em que Qadafi procurava uma agenda pan-árabe, aliou-se à União Soviética e era completamente anti-americano. Qadafi fechou todas as empresas americanas, italianas e inglesas, além de nacionalizar as companhias de petróleo. Na década de 1980, caças americanos bombardearam instalações militares e o palácio do ditador.
O governo líbio sob Qadafi foi acusado de ser o responsável pela derrubada de um avião da empresa Pan Am com 258 passageiros sobre a cidade escocesa de Lokerbie, em 1988. A animosidade entre as partes era aguda. No entanto, nos anos 2000, Qadafi começou a se aproximar dos governos dos Estados Unidos e da Itália.

Muammar Qadafi em 1969

Após anos de governo Qadafi, a população se revoltou. A revolta na Líbia começou em fevereiro de 2011, quando a população se manifestou em massa, inspirada pelas revoltas em outras partes do Oriente Médio e do Norte da África, conhecidas na mídia como "Primavera Árabe". Os protestos começaram em Benghazi e logo se espalharam para outras partes do país. Seguiu-se um período em que o governo utilizou de todos os meios militares à sua disposição para sufocar os manifestantes. Diante disso, emergiram grupos rebeldes que tinham como objetivo derrubar Qadafi. Os ataques do governo se tornaram cada vez mais severos.
Diante da grave situação humanitária, o Conselho de Segurança da ONU autorizou a criação de uma zona de restrição aérea para evitar que Qadafi utilizasse sua aviação militar para atacar a população. Como Qadafi não respeitou essa restrição, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) bombardeou várias partes do país, o que facilitou a contra-ofensiva dos rebeldes, que estavam baseados principalmente em Benghazi.
Em agosto de 2011, os rebeldes avançaram sobre a capital, Trípoli, e atacaram o centro do governo. Qadafi e sua família haviam fugido. Porém, em outubro, os rebeldes encontraram Qadafi, o capturaram e o assassinaram.

A partir de então, tentou-se formar um novo governo na Líbia. Constituiu-se um governo provisório, em novembro de 2011, liderado pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), que havia sido reconhecido em julho pelas potências europeias e Estados Unidos. Porém, os sinais de descontentamento apareceram já em janeiro de 2012, quando grupos rebeldes em Benghazi entraram em confronto com as forças do CNT.
Proliferaram-se milícias por todo o país. Diferentes grupos controlam nacos do território, que se tornou, na verdade, um aglomerado de áreas controladas por diferentes agrupamentos clânicos. Há confrontos permanentes - entre diferentes milícias, entre o governo e milicianos, entre grupos árabes e berberes etc. Extremistas islâmicos também encontraram no país um território ideal para atuar. Em 11 de setembro de 2011, um grupo ligado à Al-Qaeda atacou a embaixada norte-americana em Benghazi e matou 3 pessoas, inclusive o embaixador, Chris Stevens.
Além disso, as armas utilizadas pelos rebeldes se disseminaram entre a população e é extremamente difícil para o governo recolher esse arsenal para que somente o exército seja uma força armada. Tais armas se espalharam para outras partes do Norte da África e estão sendo utilizadas por grupos rebeldes e grupos extremistas no Mali, na Argélia, no Quênia etc.
O governo tem tentado, em vão, desmantelar as milícias e integrar algumas delas no exército do país. Em agosto de 2012, o CNT passou o governo para o Congresso Geral Líbio (CGL), que assumiu a luta para conter os grupos rebeldes e dar ordem ao país. Ali Zeiden - ex-presidente do CGL - foi eleito Primeiro-Ministro em outubro.
Zeiden é um ex-diplomata que deixou o governo de Qadafi em 1980 e desde estão fazia oposição ao governo. Durante a revolta contra Qadafi, ele foi o principal elo entre o CNT e as potências europeias. Zeiden é reconhecido como o principal responsável por obter o reconhecimento externo dos grupos rebeldes. Porém, hoje, sofre oposição de diversas frentes - grupos islamistas, milícias tribais e líderes autonomistas regionais. Ele é contestado pelos grupos rebeldes, principalmente baseados em Benghazi.
Em 10 de outubro de 2013, o próprio Zeidan foi sequestrado por um grupo rebelde e mantido cativo por seis horas. Os rebeldes afirmaram que o ato fora uma represália à captura de um líder rebelde por forças americanas. Além disso, alegaram que o Primeiro Ministro era corrupto e que subornava militares para garantir seus próprios interesses. O sequestro de Zeidan foi a expressão máxima de um governo sem poder de controlar os grupos armados do país.


A Líbia se encontra em uma posição de extrema vulnerabilidade e o governo tem se mostrado incapaz de manter a ordem em grande parte do país. É nesse quadro que se encontra a Líbia no momento e não há sinais visíveis de que a situação irá melhorar no curto prazo.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O que está acontecendo no Quênia?

Há alguns dias, vimos imagens chocantes vindas de um hotel de luxo em Nairóbi, capital do Quênia. Os números até o momento indicam que há 72 mortos e centenas de feridos. O governo anunciou que o número de vítimas pode subir, pois ainda há buscas no interior do hotel. O grupo que reivindicou o ato terrorista é a organização Ash-Shabab.
Mas o que exatamente está acontecendo no Quênia? Quem é o Ash-Shabab?


O ato terrorista no hotel Westgate, em Nairóbi, Quênia, está relacionado a vários aspectos da realidade política da região: o crescimento de grupos extremistas no norte e no centro da África, a situação precária dos Estados e as relações políticas entre os países do Chifre da África. O ato terrorista foi cometido pelo grupo Ash-Shabab alegando ser uma represália à intervenção do Quênia na Somália.

O Ash-Shabab (A Juventude) é um grupo extremista somali ligado à Al-Qaeda. Os líderes do Ash-Shabab iniciaram suas atividades em meio a grupos extremistas em atuação na Somália na década de 1990, dentre eles o Al-Ittihad Al-Islamyy (União Islâmica - UI). A UI se dividiu em 2003, entre um bloco que queria fazer a transição para a arena política e aqueles que queriam se manter na luta armada. Estes últimos criaram a União das Cortes Islâmicas - UCI. O Ash-Shabab surgiu em 2006 como ala "jovem" do UCI e como braço armado.

A Somália passa por uma guerra civil desde os anos 1980. Em 1991, o presidente, General Mohammed Siad Barre foi deposto por grupos rebeldes. Desde então, a violência se disseminou pelo país, que é considerado por muitos analistas e membros da comunidade internacional como um "Estado falido", isto é, não possui soberania dentro de suas fronteiras.
O território da Somália a partir desse período passou a ficar fragmentado entre diferentes grupos e desde então se multiplicaram os grupos extremistas islâmicos.
Atualmente, o norte do país tem estado relativamente calmo, sob o poder da auto-proclamada "República da Somalilândia". Porém, outras partes do país permanecem em estado de violência e ausência de leis. Alguns nacos de território estão em poder de grupos criminosos, que praticam sequestros de estrangeiros e atos de pirataria. Foi nesse ambiente de falta de instituições estatais que o Ash-Shabab obteve a liberdade necessária para suas atividades. O grupo praticava atos de terrorismo  não só na Somália, mas também na Etiópia, em Uganda e no Quênia.
O Ash-Shabab chegou a controlar partes do território do sul da Somália, incluindo a capital, Mogadíscio. Os líderes do grupo aplicavam uma versão extrema da Shari'a (conjunto de preceitos legais islâmicos) nos territórios sob seu controle. O grupo segue a versão wahabbista* do Islã, enquanto a maioria dos habitantes da Somália é sufista**. Em 2011, o grupo foi expulso da capital. Porém, o Ash-Shabab ainda possui domínio de territórios em algumas áreas rurais.
Não só a situação na Somália tem influência sobre a possibilidade de atuação do Ash-Shabab. O grupo também está inserido em um contexto de crescimento da atuação de grupos extremistas islâmicos no norte da África e na região do Sahara. Eventos recentes na Argélia, Mali e Nigéria demonstram esse fato.
Além disso, o Ash-Shabab conta com o apoio da Eritréia, embora o governo desse país negue que forneça armas para o grupo.
Foi nesse contexto que forças militares do Quênia intervieram no sul da Somália em 2011, como parte de um esforço conjunto de países da região. O objetivo era expulsar o Ash-Shabab de localidades estratégicas, especialmente no litoral, de onde eram lançadas operações de pirataria no Oceano Índico. Atualmente, há cerca de 4 mil soldados quenianos na Somália.
O Ash-Shabab realizou ataques contra o governo do Quênia desde então. Porém, a invasão do shopping foi o maior de todos os atos do grupo contra o Quênia.

* Wahabismo - ideário muçulmano sunita criado a partir da atividade de Mohammed Ibn Abdel Wahab (1703-1792) que pregava a volta às raízes do Islã contra o que ele considerava as "inovações" ilegítimas na vida dos povos muçulmanos, que representavam, no período, costumes e ideias europeias.

** Sufismo - tendência religiosa muçulmana que prega a união dos fieis com Allah para chegar à verdade divina. É considerado como o "misticismo islâmico". O sufismo não é uma seita no Islã, mas uma dimensão de crenças e práticas encontradas tanto no Islã sunita quanto no Islã xiita.

Ver Também:
O que está acontecendo na Argélia?
O que está acontecendo no Mali?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Possibilidades e desafios das negociações entre israelenses e palestinos

No final do mês de julho de 2013, israelenses e palestinos concordaram em voltar à mesa de negociações. Houve muito ânimo por parte da comunidade internacional. Espera-se que, finalmente, as conversações deem um fim ao conflito. Porém, como apresentado na postagem anterior (Ver As negociações entre israelenses e palestinos), alguns pontos são centrais nas negociações e geram inúmeras controvérsias que deverão ser efetivamente tratadas. Afinal, quais são as possibilidades e os desafios das negociações entre israelenses e palestinos?


Analisando o cenário atual da política israelense e palestina, qualquer previsão parece precipitada. Porém, uma coisa é certa: há inúmeras questões que tornam um acordo bastante difícil. Provavelmente, os dois lados presentes na mesa de negociação estão, de fato, interessados em chegar a um acordo. A negociadora israelense, a Ministra da Justiça Tzipi Livni, vem demonstrando nos últimos anos que sua principal bandeira política no terreno diplomático é que Israel deve chegar, o mais rápido possível, a um entendimento com os palestinos. Livni faz parte de um bloco político israelense que entende que a situação de ocupação dos Territórios Palestinos é insustentável e é prejudicial aos interesses de Israel. Segundo essa corrente, a ocupação militar e os repetidos episódios de sofrimento infligido a civis palestinos tiram a legitimidade de Israel perante a comunidade internacional. Além disso, políticos dessa corrente advertem contra o isolamento diplomático de Israel. Recorrentes medidas internacionais de retaliação à política israelense quanto à colonização na Cisjordânia causam prejuízo para o país - como quando a União Europeia adotou sanções contra produtos produzidos em assentamentos.
No lado palestino, a negociação é liderada por Saeb Erekat, que está há anos envolvido com o processo de diálogo com Israel. Erekat é um político e acadêmico: cursou Mestrado em Estudos sobre a Paz na Universidade do Estado de São Francisco (Estados Unidos) e Doutorado em Estudos sobre Paz e Conflitos na Universidade de Bradford (Inglaterra). Na Cisjordânia, foi professor de Ciência Política na Universidade An-Najah. Erekat participou das negociações que resultaram nos Acordos de Oslo e foi negociador-chefe palestino entre 1995 e 2003. Erekat faz parte de um bloco político palestino que defende a solução de dois Estados e que reconhece o Estado de Israel. Ele está entre os mais importantes nomes do Partido Fatah - agremiação do Presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, e principal legenda da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).
No entanto, apesar da disposição de Livni e Erekat a negociar, eles sabem que o processo é lento e difícil. Tanto que mantêm a maioria dos pontos em segredo e fizeram uma previsão de 9 meses para um acordo. No dia 14 de agosto de 2013, houve uma primeira rodada de conversações, mas nenhum detalhe foi divulgado.

Embora a simples aceitação de ambos os lados em voltar a conversar tenha gerado um grande ânimo na comunidade internacional, há vários desafios que os negociadores devem vencer para chegar a algum acordo.
O principal desafio é derrotar a oposição interna. Os adversários da negociação nos dois lados são extremamente atuantes e usam sua força para marcar posição e, não raro, minar as chances de acordo. 
Do lado israelense, os principais adversários são os políticos pró-assentamento e/ou contrários à retirada total da Cisjordânia. O complicador para o governo do Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu é que políticos dessa corrente estão no próprio governo. O principal representante dessa tendência é o partido político Casa Judaica (Bayit Yehudi), cujo principal líder, Naftali Bennett, é nada menos que o Ministro da Economia. Bennett se mostrou, desde o início, contrário à negociação com os palestinos. Em entrevistas recentes, ele disse que é totalmente oposto à criação de um Estado palestino e defende a anexação completa da Cisjordânia (território que os favoráveis aos assentamentos chamam de "Judeia e Samária"). Dessa forma, o governo Netanyahu está em uma posição ambígua. Seu gabinete está dividido. De um lado, a Ministra da Justiça é a favor das negociações; de outro, o Ministro da Economia é contrário.
Os políticos do partido Casa Judaica já ameaçaram se retirar do governo se Netanyahu for adiante nas negociações. Isso poderá gerar uma crise política, pois a maioria liderada por Netanyahu será desmantelada. Por outro lado, líderes do Partido Trabalhista, agremiação que hoje está na oposição, afirmaram que se a Casa Judaica abandonar o governo, o Partido Trabalhista tomará o seu lugar.
Do lado palestino, a situação também não é fácil. O principal opositor das negociações é o Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas. Os políticos do Hamas alegam que Mahmoud Abbas não tem legitimidade para negociar em nome de todos os palestinos. Vale dizer que o Hamas e o Fatah (partido de Abbas) são adversários políticos de longa data, situação que degenerou em inimizade aberta desde que o Hamas tomou o controle da Faixa de Gaza, em 2007. As tentativas de reconciliação entre os grupos não vêm tendo sucesso nos últimos anos. As negociações com Israel, com certeza, estão entre os entraves ao acordo entre ambos. Teoricamente, o Hamas não reconhece Israel e não aceita a solução de dois Estados, embora em algumas ocasiões, líderes políticos do grupo acenem com essa possibilidade. Contudo, além do Hamas, há outros grupos menores atuando na Faixa de Gaza que também são contra as conversações.
A situação no terreno também é muito ruim. Logo depois do anúncio do reinício do diálogo, 4 foguetes foram lançados da Faixa de Gaza contra Israel, muito provavelmente pela Jihad Islâmica da Palestina. Do lado israelense, em 20 de julho, colonos atacaram palestinos em Hebron. O clima político ficou mais tenso em toda a Palestina. No dia 14 de agosto, data prevista para a primeira rodada de negociações em Jerusalém, Israel bombardeou a Faixa de Gaza, em resposta ao disparo de um foguete.

Saeb Erekat, Secretário de Estado norte-americano John Kerry e Tzip Livni.

Diante disso, a chave para o sucesso das negociações será a vitória contra os opositores da negociação entre israelenses e palestinos.
Para amenizar um pouco a oposição interna, ambos os lados já manifestaram que qualquer proposta de acordo irá passar por um referendo. Com isso, sabem que, se o acordo for aprovado, terão ao seu lado a legitimidade de um processo democrático. Resta saber, portanto, como ambas as populações irão se posicionar se houver um acordo na mesa de negociações.
Isso está relacionado à visão das populações de ambos os lados sobre a solução de dois Estados. Segundo pesquisa Gallup, 52% dos israelenses judeus apoiam a solução de dois Estados, contra 40% contrários e 8% sem opinião. Por outro lado, 64% dos entrevistados não acreditam que tal solução seja alcançada algum dia. Somente 28% dos israelenses judeus têm esperança de que um dia seja criado um Estado palestino ao lado do Estado de Israel.
Já no lado palestino, há uma maior tendência a aceitar a solução de dois Estados, indicando uma visão clara da aceitação da realidade do Estado de Israel. Porém, há uma nítida diferença entre os habitantes dos dois territórios palestinos: 70% dos palestinos da Cisjordânia aceitam a solução de um Estado palestino vivendo ao lado do Estado de Israel, enquanto somente 48% dos habitantes da Faixa de Gaza aceitam tal situação.
Ou seja, há chances de aprovação do acordo em caso de um referendo.
No entanto, evidentemente, isso depende do teor do acordo que será obtido na mesa de negociações (se, de fato, houver acordo). A solução de dois Estados requer muito mais que a simples aceitação da existência do outro. Há questões sensíveis a serem negociadas que parecem colocar os dois lados em posições irreconciliáveis.

Um dos principais problemas é quanto ao status de Jerusalém. A maioria dos palestinos não aceitará um Estado sem Jerusalém Oriental como capital. No lado israelense, por sua vez, há um grande contingente que não aceitará a divisão da cidade. O governo de Netanyahu já disse que Jerusalém é a capital "eterna e indivisível" de Israel.
Quanto aos assentamentos, muitos israelenses acreditam que algumas colônias devem permanecer sob controle israelense. Isso os palestinos podem até aceitar, desde que haja uma troca equilibrada de territórios. Mas os assentamentos em Jerusalém (considerados bairros pelos israelenses) não serão tolerados pelos palestinos. Nem outros que possam impedir um Estado palestino contíguo.
O próprio Netanyahu indica pouca disposição de parar a construção dos assentamentos. Mesmo com as negociações sendo anunciadas com júbilo pela comunidade internacional, o governo israelense já noticiou que irá construir mais de 2.000 casas em territórios ocupados em Jerusalém Oriental e em outras partes da Cisjordânia. Evidentemente, isso se deve à pressão de parte do seu governo, do já mencionado partido Casa Judaica e mesmo de políticos de dentro de seu próprio partido, o Likud. Netanyahu sabe que para manter a coesão de seu gabinete, precisa achar uma fórmula entre as pressões dos Estados Unidos (que já declarou que os assentamentos são "ilegítimos") e a amizade de políticos dos partidos pró-colonização dentro de seu governo.
Outra questão sensível é a situação dos refugiados palestinos. Muitos palestinos que vivem em campos de refugiados em países como Líbano, Jordânia e Síria, sonham em retornar para o território em que moravam antes das guerras de 1948-49 e 1967. Isso significa que muitos palestinos almejam residir em lugares no interior do Estado de Israel. A esmagadora maioria dos israelenses nega com veemência esse pedido, pois haveria uma radical transformação demográfica em Israel, que não mais teria uma maioria judaica e, portanto, deixaria de ser um Estado judeu. Por outro lado, é difícil um líder palestino abrir mão completamente de lutar por algum benefício para os refugiados. O retorno é algo quase impossível. Talvez uma opção a ser negociada seria uma indenização, por meio da criação de um fundo internacional, com contribuições de Israel (o que também é difícil, dadas as condições financeiras do país).

Com todos esses desafios postos, já se sabe, de antemão, que as negociações serão extremamente complicadas e que um acordo, que seja aceito como justo por ambas as partes, terá grandes dificuldades em ser alcançado.

Ver também:

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Crise no Egito

Atualizado em 17 de agosto de 2013, às 18:00h (horário de Brasília)

Ver também: O que está acontecendo no Egito?


O dia 14 de agosto de 2013 foi marcado pela violência entre apoiadores do presidente deposto Mohammed Mursi e as forças armadas.
Mursi foi eleito presidente em junho 2012, nas primeiras eleições democráticas na história do Egito. Em 3 de julho de 2013, após meses de deterioração da situação política, as forças armadas derrubaram o presidente.

Em meados de julho de 2013, apoiadores de Mursi se reuniram em torno da Mesquita Rabaa al-Adawiya, no nordeste do Cairo, exigindo a renúncia do atual governo e o retorno de Mursi à presidência. Por sua vez, o governo vinha demandando que os protestos terminassem, mas os manifestantes não abandonavam o local nem deixavam de marchar pelas ruas da capital. Então, no dia 14, o Exército chegou por volta das 7 da manhã e abriu fogo contra a multidão, matando vários manifestantes. No momento, os números divergem. Integrantes da Irmandade Muçulmana alegaram que mais de 2.000 pessoas foram mortas. A última declaração oficial apontou 638 mortos, 43 dos quais eram policiais, e mais de 4.000 feridos.


O governo decretou estado de emergência por um mês que entrou em vigor às 16h (horário local, 11h pelo horário de Brasília).
Por conta da explosão de violência, o Vice-Presidente interino, o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Mohammed El-Baradei, renunciou. O grupo Tamarod (Revolta), oposto a Mursi, declarou repúdio pela renúncia de El-Baredei, que segundo o grupo, fugiu de suas responsabilidades.
Os Estados Unidos declararam que a violência era "deplorável" e anunciaram que estão analisando a ajuda militar ao Egito.
Outros atores internacionais também condenaram a ação militar. União Europeia, Nações Unidas, França, Grã-Bretanha, Irã, Turquia, Japão, Itália, Catar, dentre outros, demandam urgentemente que todos se abstenham de usar a força e busquem uma solução negociada. Por outro lado, a Arábia Saudita manifestou apoio aos militares.
Enquanto isso, no dia 15, integrantes da Irmandade Muçulmana passaram para a ofensiva. Milhares de manifestantes voltaram às ruas, em várias cidades do país, afrontando o estado de emergência proclamado no dia 14, além de incendiarem um prédio governamental no distrito de Gizé, no Cairo.
No dia 16 de agosto, a Irmandade Muçulmana convocou seus seguidores para se manifestarem no que chamaram "Dia de Fúria". Apoiadores de Mursi saíram às ruas por todo o país. Houve confrontos  entre manifestantes e policiais no Cairo, em Alexandria, Ismailyya, Damietta, Port Said e Tanta.
No dia 17, forças militares governamentais fizeram um assalto à Mesquita Al-Fatah, próxima à Praça Ramsés, no Cairo, onde apoiadores de Mursi estavam entrincheirados desde o dia anterior.
Fontes do Ministério da Saúde do Egito divulgaram que o número de mortos nos confrontos dos dias 16 e 17 chegou a 173.
A situação no Egito permanece profundamente grave.

Ver também:
O que está acontecendo no Egito?
A nova Constituição do Egito
Lei e política no Egito
O futuro do Egito