Diariamente, somos bombardeados por informações vindas de todos os lados. Recebemos notícias, indicadores, análises, e prognósticos que chegam dos cinco continentes. Apesar da enormidade de informações, quase sempre nos vemos incapazes de compreender o que ocorre. Este blog pretende ser uma contribuição para entender esse mundo complexo. É claro, não tem a pretensão de ser um oráculo, que dê conta de tudo o que ocorre no mundo, mas uma busca incessante de entender o que acontece à nossa volta.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O que está acontecendo entre China e Japão?

Na última semana, ocorreram na China maciços protestos de rua contra o Japão. De início as manifestações eram pacíficas e os chineses gritavam slogans contra o Japão e exibiam faixas pedindo boicote a produtos japoneses. Contudo, houve também casos de violência, entre manifestantes e policiais. Além disso, os protestos se radicalizaram e os japoneses passaram a temer por sua integridade física. Empresas deram folga a empregados e grandes conglomerados japoneses de eletro-eletrônicos, como Panasonic e Canon, e montadoras, como Toyota, Nissan e Honda, suspenderam temporariamente as atividades na China em virtude da falta de segurança.
Mas afinal, o que explica esses tumultos? Qual é a causa desses distúrbios?
A causa para a presente situação é a indignação de parte da população chinesa a respeito do controle japonês de um conjunto de ilhas que os chineses alegam ser parte da China. O conjunto de ilhas - chamadas de Sensaku pelos japoneses e Diaoyu pelos chineses - foi dominado pelo Japão em 1895 em virtude da guerra entre o Japão e a China da Dinastia Qing. Desde então, a posse das ilhas é disputada. O Japão alega que ao ocupar o arquipélago em 1895 passou a ter o direito de posse sobre o território, afirmando, ademais, que a China mantinha as ilhas despovoadas. Já os chineses alegam que as ilhas fazem parte da China desde "tempos imemoriais" e que o Japão tomou as ilhas ilegalmente dos chineses. Atualmente, a  importância das ilhas, que são desabitadas, reside nos importantes depósitos de gás natural descobertos no território.
A contenda se agravou no início de setembro, quando o governo japonês anunciou a compra das três ilhas  e a anexação definitiva ao território nacional japonês. Tal anúncio foi o estopim para o início dos protestos.


Por trás dos incidentes atuais, na verdade, está a questão mais profunda da tensa relação entre China e Japão.
A relação entre os dois países é delicada desde, pelo menos, o final do século XIX. Após a revolução Meiji, em 1868, o Japão se expandiu para fora do arquipélago e iniciou um processo de aquisição de territórios no mar da China e no Oceano Pacífico. Em 1894, o Japão entrou em guerra contra a China, na denominada "Primeira Guerra Sino-Japonesa". Em 1895, como resultado da vitória japonesa, o Japão obteve muitos territórios. Foi nesse conflito que o Japão ocupou as ilhas Sensaku/Diaoyu.
Porém, a animosidade sino-japonesa atual vem de um confronto mais recente. Na década de 1930, em um processo de expansão pela Ásia e pelo Pacífico, o Japão avançou contra várias porções do território chinês, no que ficou conhecido como "Segunda Guerra Sino-Japonesa". Tal conflito, assim como a Guerra Civil Espanhola, é considerado um dos prelúdios da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), em que o Japão se aliou à Alemanha Nazista e à Itália Fascista.
Em 1931, o Japão invadiu província chinesa da Manchúria e instalou ali um regime fantoche liderado por Pu Yi, o último imperador chinês (ver filme O último Imperador, de Bernardo Bertolucci). Em 1937, o Japão iniciou uma invasão de grande envergadura ao território chinês com o objetivo de dominar toda a China. A postura dos militares japoneses foi extremamente violenta. A ocupação da então capital chinesa, Nanquim, foi caracterizada por atos cruéis perpetrados pelos soldados japoneses. Assassinatos a sangue frio, fuzilamentos sumários, torturas e violência sexual contra mulheres e crianças ocorreram com a conivência de militares de altas patentes. O episódio desde então é conhecido como "estupro de Nanquim" (Este episódio é bem demonstrado no filme recente Flores do Oriente).
Os japoneses ocuparam grandes extensões do território no Leste chinês até a derrota na Segunda Guerra Mundial. Em 9 de setembro de 1945, as tropas japonesas se renderam e iniciaram a retirada.
Porém, como podemos verificar pelos distúrbios desses últimos dias, as feridas continuam abertas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O que é a Questão Palestina?

3ª parte: Dos Acordos de Oslo ao impasse atual (1993-2012)
Atualizado em 1° de dezembro de 2012


Como vimos anteriormente, muita esperança foi depositada nos Acordos de Oslo. A "declaração de princípios", embora criticada por muitos palestinos, parecia oferecer uma solução definitiva para um conflito quase secular.  Se houvesse uma continuação sólida na implantação do que era previsto nos acordos, por volta da virada do século os palestinos poderiam ter um Estado.
Com os acordos, foi criada a Autoridade Nacional Palestina (ANP), um órgão quase governamental, encarregado de ser a instituição estatal prévia à criação de um Estado Palestino. Yasser Arafat foi o primeiro presidente da ANP. E nas eleições de 1996, foi confirmado no cargo.
Havia uma sensação de que o conflito terminaria, tanto que o termo usado nas negociações era "processo de paz", como se todo o caminho já estivesse dado.O grau de otimismo era enorme e Yasser Arafat, Ytzak Rabin e Shimon Peres (Presidente de Israel) receberam o Prêmio Nobel da Paz em 1994.
Contudo, além de gestos e fotografias, era necessário um envolvimento político de fato do governo de Israel em levar adiante o que havia sido acordado com Arafat. Rabin parecia estar de fato comprometido com a conclusão do acordo. Porém, nem toda a sociedade israelense estava disposta a isso. Em 4 de novembro de 1995, Rabin foi assassinado por um extremista religioso judeu, contrário à retirada de Israel da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.
Os grupos extremistas judeus entendem que toda a Palestina deve ficar sob controle israelense. Há, pelo menos, três segmentos que defendem a não retirada dos territórios ocupados, por razões diferentes: os religiosos, que alegam que toda a Palestina foi dada aos judeus pelo próprio Deus (Yahweh, YHWH) ; os nacionalistas, que entendem que toda a Palestina que estava sob Mandato Britânico é território inviolável do povo judeu; e os militaristas, que dizem que, com uma Cisjordânia independente, o Estado de Israel estaria vulnerável a um ataque árabe vindo do Leste.
Tais grupos foram ajudados durante décadas por políticas oficiais. Desde que a Cisjordânia foi ocupada em 1967, iniciou-se a construção de colônias judaicas nesse território. Facilidades de assentamento, redução de impostos e outros incentivos governamentais fizeram crescer enormemente a população judaica na Cisjordânia, chamada por muitos desses grupos pelos nomes bíblicos de Judeia e Samaria. Além disso, sucessivos governos israelenses realizaram investidas populacionais em Jerusalém Oriental (reconhecida por muitos países como capital do futuro Estado palestino), visando tornar essa parte da cidade menos "arabizada". Para alguns grupos israelenses, Jerusalém é a "capital eterna e indivisível de Israel" e seria uma espécie de traição dividir a cidade com os palestinos. Colônias também foram construídas na Faixa de Gaza, mas o governo de Israel desmantelou todos os assentamentos judaicos na área em 2005.
Após os Acordos de Oslo, os grupos extremistas judeus iniciaram também uma série de ataques à população palestina. O pior deles ocorreu em 1994, quando um extremista judeu assassinou 29 muçulmanos que oravam na Tumba dos Patriarcas, em Hebron, onde muçulmanos, cristãos e judeus acreditam que o profeta Abraão está sepultado.
Paralelamente a isso, os palestinos também atacavam israelenses. Nesse período, entrou em cena de forma mais contundente o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica). O Hamas foi criado durante a Primeira Intifada. Manifestamente religioso, pregava a destruição de Israel e a construção de uma Palestina muçulmana. Era, além disso, frontalmente oposto ao Fatah, que liderava a OLP. Por isso, de todos os grupos que surgiram em meio à Intifada, apenas o Hamas não se juntou à OLP. O curioso é que o Hamas deve muito de sua existência a Israel. O governo israelense, durante a década de 1980, em uma tentativa de enfraquecer a OLP, concedeu vultosos montantes ao grupo assistencialista muçulmano chamado Al-Mujamah (O Congresso), liderado pelo Sheik Ahmed Yassin, mesmo tendo encontrado, em 1984, um grande arsenal em uma mesquita administrada pelo grupo. Em 1987, Yassin e outros membros da al-Mujamah fundaram o Hamas.
Diante da escalada da violência palestina, as eleições israelenses de 1996 levaram ao poder o líder nacionalista Benjamin Netanyahu, do partido Likud (um partido de direita). Como Primeiro-Ministro, Netanyahu adotou certos procedimentos seguindo o processo de paz com os palestinos, como a retirada de Israel de algumas partes de Hebron e as tentativas de diálogo com Yasser Arafat. Contudo, em outras partes, desconsiderou os Acordos de Oslo e adotou medidas governamentais que elevaram o número de assentamentos judaicos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.
Diante dessa política, a relação entre palestinos e israelenses se deteriorou cada vez mais. Da mesma forma, Netanyahu perdeu apoio interno. Foi acusado pela direita de fazer demasiadas concessões aos palestinos e criticado duramente pela esquerda por continuar a colonização da Cisjordânia. Com o aumento de seu isolamento político, foi derrotado nas eleições de 1999 por Ehud Barak do Partido Trabalhista (esquerda).
Barak buscou, com a intermediação de Estados Unidos e Liga Árabe, um acordo com os palestinos. Os palestinos lutavam por um Estado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, tendo Jerusalém Oriental como capital. Em 2000 israelenses e palestinos tentaram chegar a um acordo na Conferência de Camp David. Há muita controvérsia e especulação sobre esse encontro, já que não houve nenhum documento escrito. Para muitos israelenses, Barak ofereceu o que os palestinos queriam, cedendo inclusive na questão de Jerusalém. A culpa pela falta de acordo seria de Arafat, ao não aceitar a ótima oferta. Para os palestinos, Barak não ofereceu tudo, quis deixar a questão de Jerusalém para ser resolvida posteriormente e propôs a manutenção de uma faixa de terra ao longo do rio Jordão em poder de Israel, como tampão contra uma eventual invasão árabe. É difícil saber exatamente o que ocorreu. Acusações são trocadas pelos dois lados desde então. O fato é que o acordo não foi alcançado.
Mas em 2000, outro evento sacudiu a relação entre palestinos e israelenses. Em 28 de setembro, Ariel Sharon fez uma visita à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, o que foi visto por muitos palestinos como um ato de provocação. A violência explodiu no que ficou conhecido como Segunda Intifada, ou Intifada de Al-Aqsa (referência a uma das mesquitas localizada na esplanada).
Porém, uma diferença significativa marcou esse levante em relação à primeira Intifada. Não eram somente paus e pedras a serem utilizados pelos palestinos, mas ataques terroristas contra civis israelenses. Vários ataques se sucederam entre 2000 e 2001, com destaque para a utilização de ataques suicidas.
Em 2001, diante da escalada da violência, os israelenses elegeram o linha-dura Ariel Sharon como primeiro ministro. Afirmando se comprometer com o processo de paz, Sharon tentou negociar com Arafat, ao mesmo tempo em que tomou duras medidas para deter os atentados terroristas. Porém, a relação foi rompida de vez em 2002, quando Sharon invadiu as áreas autônomas da Cisjordânia (áreas com controle palestino segundo os Acordos de Oslo) com tanques e artilharia pesada e isolou Arafat no quarte-general da ANP em Ramalah.
Após muitas críticas internacionais, especialmente da Europa, e acusações de violações dos direitos humanos por parte de militares israelenses na cidade palestina de Jenin, as forças armadas de Israel se retiraram do território. Porém, os ataques continuaram. Os anos de 2001 e 2002 foram os mais sangrentos da Segunda Intifada, mas os ataques continuaram em 2003 e 2004.
Em 2004, Yasser Arafat faleceu, sendo substituído por um de seus mais próximos aliados, Mahmoud Abbas. Foi forte a comoção na Palestina. Milhares de pessoas compareceram aos funerais do líder que conduzia a causa palestina desde a década de 1960. Abbas, embora comprometido com o processo de paz, não consegue, desde então, fazer com que Israel ceda nas negociações. Sua fraqueza externa é ainda mais agravada pela fraqueza interna. Em 2006, ocorreu um evento significativo na política palestina. Nas eleições parlamentares, o Hamas venceu o Fatah, tendo o direito de indicar o Primeiro-Ministro da ANP, a primeira vez desde 1969 que o Fatah perdia a primazia no movimento político palestino.
Externamente, a vitória do Hamas foi um choque. Considerado terrorista pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por Israel, o Hamas agora ocupava um cargo político, tendo sido eleito democraticamente. Os Estados Unidos foram pegos de surpresa e ficaram em uma situação complicada, já que o presidente George W. Bush havia invadido o Iraque em 2003 afirmando querer levar democracia aos iraquianos e agora se viu na posição de não aceitar o resultado de eleições que haviam sido fiscalizadas por observadores internacionais. O governo norte-americano passou a ameaçar o corte de financiamento à ANP caso o Hamas não renunciasse ao terrorismo.
No plano interno, Hamas e Fatah chegaram a administrar os territórios palestinos autônomos por meio de um governo de união. Administravam conjuntamente a Faixa de Gaza, que foi desocupada por Israel em 2005, e algumas cidades da Cisjordânia, autônomas segundo os Acordos de Oslo. Porém, em 2007, os dois partidos entraram em confronto armado na Faixa de Gaza e o Hamas expulsou o Fatah do território. Na prática, atualmente a Faixa de Gaza é governada pelo Hamas e as áreas autônomas da Cisjordânia, pelo Fatah. Nos últimos anos, há uma tentativa de reconciliação, que ainda não surtiu efeito.
Paralelamente a essa contenda interna, a violência contra Israel continuou nos primeiros anos do século XXI. Como as medidas de restrição de movimento aos palestinos, como a passagem por postos de checagem militares (check points), não davam resultado, o governo de Israel iniciou a construção de uma barreira física denominada pelos israelenses como "Cerca de Defesa", um muro que isola a Cisjordânia de Israel e de assentamentos judaicos construídos dentro da Cisjordânia. Grupos da comunidade internacional condenam a construção do muro porque avança no interior do território considerado palestino e cria um fato consumado nas colônias protegidas pela barreira. Ativistas israelenses, palestinos e de outros países chamam a barreira de "Muro do Apartheid". A despeito das críticas, a construção da barreira - que, na verdade, começou em 2000 - foi acelerada após a eclosão da Segunda Intifada. De acordo com autoridades israelenses, o número de atentados palestinos diminuiu consideravelmente após a construção da cerca.


Porém, como a solução política não foi alcançada, extremistas palestinos continuam usando a violência contra Israel. Porém, agora por meio do lançamento de foguetes rudimentares da Faixa de Gaza para o Sul de Israel. Os foguetes causam pouco ou nenhum dano militar a Israel. Contudo, o efeito psicológico é devastador. Israelenses que moram em cidades como Sderot e Ashkelon vivem em permanente estado de tensão, temendo ser atingidos por foguetes disparados pelo braço armado do Hamas e por outros grupos, como as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, a Jihad Islâmica da Palestina e os Comitês de Resistência Popular. Em geral, Israel ataca pontualmente locais que, segundo órgãos de inteligência, armazenam tais foguetes ou faz operações contra grupos que se direcionam à fronteira da Faixa de Gaza para cometerem os ataques. Porém, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, as forças armadas israelenses se engajaram em uma campanha avassaladora, que também tinha o objetivo de resgatar o soldado israelense Gilad Shalit, sequestrado pelo Hamas em junho de 2006. A operação denominada "Chumbo Fundido" resultou na morte de cerca de 1.400 palestinos, muitos dos quais eram civis, incluindo mulheres e crianças. As imagens correram o mundo e as críticas contra Israel foram imensas. Houve um relatório da ONU condenando Israel por uso desproporcional da força e por usar mísseis de fósforo branco, proibidos por convenções internacionais.
No plano político israelense, também ocorreram mudanças importantes. Quando Ariel Sharon decidiu desmantelar as colônias judaicas na Faixa de Gaza, em 2005, no que ficou conhecido como "desengajamento", a reação no interior de seu partido, Likud, foi enorme. Sharon então se desfiliou e fundou o Kadima. Porém, em dezembro de 2005, sofreu um ataque cardíaco e se mantém até hoje em estado de coma. Como substituto, assumiu como Primeiro-Ministro Ehud Olmert, que posteriormente foi eleito para o termo 2006-2009. Em 2006 Olmert ordenou o ataque israelense ao Líbano, com o objetivo de destruir o grupo libanês muçulmano xiita Hizbollah, que atacava o norte de Israel. Olmert fracassou e o grupo xiita saiu fortalecido politicamente do conflito. Além disso, os ataques da Faixa de Gaza continuavam. Foi Olmert quem ordenou a operação Chumbo Fundido. Fracassou também em sua tentativa de destruir o Hamas. Diante disso, perdeu as eleições de 2009 para Benjamin Netanyahu, que desde então ocupa, pela segunda vez, o cargo de Primeiro-Ministro.
O momento atual é de impasse. O Likud, partido de Netanyahu, conseguiu formar um governo formando uma coalizão com grupos extremistas religiosos. Assim, qualquer acordo com os palestinos parece muito distante. Em 2011, os palestinos foram à ONU em busca de uma resolução reconhecendo o Estado palestino. Certamente, uma resolução favorável seria aprovada na Assembleia Geral. Porém, ainda mais certo seria o veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança. Assim, o caso continua na ONU aguardando mais desdobramentos.
Enquanto isso, Israel continua a construir assentamentos na Cisjordânia e continua a povoar Jerusalém Oriental com cidadãos israelenses, às vezes por meio da expulsão (com ou sem instrumentos jurídicos) de famílias palestinas que habitam a cidade há gerações. A Cisjordânia sob controle palestino não passa de um aglomerado de territórios desconexos, descontínuos, cujos moradores não têm liberdade de movimento, como mostra o mapa abaixo (as partes em marrom são as regiões A, sob total administração palestina, civil e militar; as partes em laranja, são os territórios B, administração civil palestina e militar israelense; e as partes azuis são as áreas C, sob total controle israelense - tal divisão foi elaborada nos Acordos de Oslo).


Internacionalmente, a solução mais defendida é a criação de dois Estados. Porém, com o ritmo elevado de construção de assentamentos judaicos na Cisjordânia, essa solução, para muitos, parece cada vez mais inviável. Por isso, em 29 de novembro de 2012, Mahmoud Abbas recorreu à Assembleia Geral da ONU para salvar a solução de dois Estados. A aprovação da resolução A/67/L.28, elevando o status da Palestina a "Estado Observador Não-Membro" na ONU, por uma esmagadora maioria de 138 a 9, foi um evento significativo e garantiu legitimidade ao Estado palestino. Contudo, os resultados ainda são incertos.
Alguns defendem a criação de um Estado único para palestinos e israelenses. Se isso ocorrer, Israel estará em uma encruzilhada. Se incluir todos os palestinos politicamente e civilmente no Estado, isso fará com que Israel deixe de ser um Estado judeu. Se não fizer isso, será um Estado similar à África do Sul do Apartheid. Assim, os israelenses hoje estão diante de três opções: 1) Um Estado judeu em parte da Palestina; 2) Um Estado bi-nacional em toda a Palestina; ou 3) Um Estado judeu em toda a Palestina mantido por um sistema de segregação.
O futuro nos dirá o fim da História.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A internacionalização dos confrontos na Síria

Atualizado em 6 de junho de 2013

Assim como ocorreu no Líbano entre as décadas de 1950 e 1990, a Síria hoje vive em uma guerra civil em que se confrontam não apenas os grupos internos, mas também as tendências políticas regionais. A Crise na Síria foi internacionalizada e o território sírio tornou-se, assim, um campo de batalha regional.
Após alguns casos militares emblemáticos, como a derrubada de uma aeronave do governo, fica claro para diversos analistas que o chamado "Exército Livre da Síria" (ELS) está sendo armado por atores externos. Isso requer uma análise um pouco mais aprofundada sobre a política regional do Oriente Médio e os desequilíbrios causados pela "Primavera Árabe".



O Oriente Médio da primeira década do século XXI continha, de maneira geral, um arranjo geopolítico delineado. De um lado, havia os atores pró-Ocidente: Israel, Arábia Saudita, Egito, Turquia, Jordânia, Estados do Golfo, Iraque (pós-invasão americana), Kuwait, o Fatah palestino e alguns grupos libaneses - aliados dos Estados Unidos e da União Europeia; de outro, os atores anti-Ocidente: Irã, Síria, Hizbollah libanês e o Hamas, na Palestina - atores, em um nível político global, próximos à Rússia e à China.
Após as revoltas que derrubaram governos e os casos em que o destino político ainda está em aberto (como a Síria, Bahrein e Egito), a divisão geopolítica tornou-se mais confusa. O Egito ainda não se definiu claramente sobre Israel e Estados Unidos. A oposição na Síria é fragmentada e diversificada e nada garante que um governo pós-Asad será orientado para o Ocidente. O Hamas retirou seu apoio ao governo Asad e se aproximou do Catar, um ator com grande grau de autonomia diplomática.
No nível global, ainda que os Estados Unidos não esperassem o levante popular na Síria, por conta de sua posição internacional tiveram que pressionar Bashar al-Asad a pôr fim ao massacre de civis. Como isso não ocorreu, norte-americanos e europeus iniciaram uma onda de sanções econômicas com vistas a debilitar o governo e a impedir a aquisição de armas pesadas. Porém, a Rússia continua vendendo armas para o regime de Bashar al-Asad, enquanto o Irã continua e conceder importantes empréstimos para o governo sírio.
Para contrabalançar o poderio militar governamental, países como Arábia Saudita e Catar começaram a armar o ELS. Armas pesadas, inclusive com baterias anti-aéreas foram fornecidas para a oposição, o que possibilitou que o ELS avançasse sobre Alepo e Damasco, as duas cidades mais importantes do país e com maior poderio militar do governo. A Rússia anunciou em maio de 2013 que forneceria baterias anti-aéreas para a Síria, impossibilitando a eventual criação de uma zona de exclusão aérea, como ocorreu na Líbia. Os Estados Unidos declararam que ajudam a oposição, porém, não com armas. Segundo o Departamento de Estado americano, Washington tem fornecido equipamentos de comunicação. Nos últimos meses, tem se intensificado a tendência dos Estados Unidos de passarem a fornecer armamentos aos rebeldes. Por outro lado, há fortes indícios de que militantes extremistas saídos do Iraque e do Afeganistão tenham se infiltrado na Síria.Tudo isso possibilitou também que o ELS ocupasse e controlasse efetivamente nacos de território sírio. Tal configuração de poder foi tomada como critério por analistas militares para configurar a crise na Síria como "guerra civil" e não mais como um levante.



Diversos atores participam da guerra civil na Síria porque muito está em jogo nesse conflito. Para o Irã, significa a perda de seu mais importante aliado no Oriente Médio e que um governo pró-Ocidente poderia emergir na sua fronteira, o que poderia ajudar Estados Unidos e Israel. Porém, Israel também está apreensivo com os possíveis resultados do conflito. Ainda que se declarasse manifestamente inimigo de Israel, Bahsar al-Asad nunca tomou ações substanciais para retomar as Colinas de Golã, território ocupado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. Um governo hostil, de tendência islamista ou outra, poderia desequilibrar a situação militar na fronteira e levar a uma nova guerra entre Israel e Síria. Além disso, israelenses temem que o grande arsenal de armas químicas sírias caia em mãos de terroristas que desejam atacar Israel. O Hizbollah teme, com a queda de Asad, a perda de uma fonte de apoio militar e político. Em maio e junho de 2013, o grupo xiita libanês participou ativamente dos combates na estratégica cidade de al-Qusayr. Já a Rússia teme perder sua última base militar no Mediterrâneo, na cidade de Latakia.
Se há quem perca ou tema a queda de Asad, há outros atores regionais que esperam ansiosamente por uma mudança de regime na Síria. Arábia Saudita, Jordânia e Catar são países adversários de Asad, que ganhariam uma nova influência regional se houvesse um enfraquecimento do poderio político e militar da Síria e de seu aliado Irã.
Por tudo isso, a guerra civil na Síria se complexifica e se torna mais sangrenta com o grande afluxo de armas. Governo e oposição são acusados de violações de direitos humanos. E a perda de vidas se torna mais elevada. O resultado da guerra civil na Síria ainda não pode ser afirmado com certeza. Porém, o que se sabe é que a política regional não será a mesma depois do desfecho do sangrento confronto sírio.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O que é a Questão Palestina?

2ª PARTE
Da fundação de Israel aos Acordos de Oslo (1948-1993)

             


            Como vimos na 1ª parte, Israel lutou uma guerra contra cinco países árabes entre maio de 1948 e janeiro de 1949, após os líderes sionistas declararem a fundação do país no momento em que os britânicos findaram sua administração na Palestina. E, assim, o combate entre sionistas e palestinos, tornou-se o conflito árabe-israelense, um conflito entre Estados nacionais do Oriente Médio, e o conflito israelense-palestino, um embate entre o Estado de Israel e diversos grupos armados e políticos palestinos.
      Após o fim dos combates entre Israel e os países árabes, em 1949, os palestinos encontravam-se em três situações distintas. Os que fugiram de suas casas, os que permaneceram nos territórios que se tornou Israel e os que viviam nas áreas que se tornaram a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. Estes últimos estavam sob administração egípcia e jordaniana, respectivamente, e viviam em uma situação relativamente melhor, já que continuavam habitando os mesmos lugares de antes da guerra. Contudo, os dois outros grupos vivem, ainda hoje, em uma situação precária.
           O contingente que fugiu de suas casas ou foi expulso pelas tropas israelenses foi morar em campos de refugiados em diversas partes do Oriente Médio. Os cerca de 800 mil refugiados palestinos viviam principalmente no Líbano, na Jordânia, na Síria e no Iraque. Alguns campos de refugiados foram construídos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. Esses campos, criados para serem temporários, tornaram-se permanentes. As barracas de lona viraram barracos de madeira e depois foram transformados em casas de alvenaria. Contudo, grande parte desses campos ainda existe e muitos deles são precários e insalubres.
            Dentre os grupos árabes que permaneceram em Israel, muitos deles receberam cidadania israelense – são os árabe-israelenses. Hoje, representam cerca de 20% da população de Israel. Sua situação também é precária. Muitos reclamam de serem tratados como cidadãos de segunda classe e de sofrerem preconceitos. Por sua vez, muitos israelenses manifestam desconforto com essa população e os consideram traidores do país e uma espécie de “quinta coluna” dentro de Israel. Já houve declarações de políticos afirmando que se houver um Estado palestino no futuro, essas pessoas deveriam ser incentivadas a se mudar para lá.
            No interior dos três grupos palestinos houve, desde 1949, uma sensação de perda e de ferida pela criação de Israel e pela desagregação da sociedade palestina. Muitos militantes passaram a cometer ataques a propriedades e a bens em Israel. Embora esses ataques causassem pouco ou nenhum impacto político, criava uma sensação de insegurança em Israel e demandas, por parte dos israelenses, para que o governo agisse para conter esses ataques.
            Tais ataques eram desorganizados e eram iniciativas fundamentalmente individuais. Não havia, nesse momento, um movimento organizado por parte dos palestinos. Na verdade, a luta interna entre árabes palestinos e sionistas antes de 1948 tornou-se uma luta entre Estados após a fundação de Israel.
Entre 1949 e 1956, as escaramuças entre os Estados eram frequentes, mas de intensidade fraca. Isso mudou em meados da década de 1950, quando o Oriente Médio foi palco de uma nova guerra. Os principais atores médio-orientais foram o Egito e Israel.
O Egito passou por uma revolução em 1952, em que militares, em sua maioria de patentes médias, derrubou o regime do Rei Farouk. Sob a liderança de Gamal Abdel Nasser, o Egito se tornou o maior e mais temido inimigo de Israel no Oriente Médio. Nasser declarou que todos os Estados árabes deveriam se unir para derrotar seus inimigos. Seu pan-arabismo era dirigido contra Israel e contra as potências colonialistas que ainda tinham bastante poder na região, a Grã-Bretanha e a França.
A Grã-Bretanha possuía, em meados da década de 1950, 80 mil soldados estacionados no Canal de Suez (construído em 1889 para possibilitar a ligação do Oceano Índico com o Mar Mediterrâneo), um dos últimos bastiões do Império Britânico. Nasser queria a completa retirada dos britânicos. Além disso, apoiava a guerrilha argelina contra a França. Percebendo que tinham um inimigo comum, Grã-Bretanha, França e Israel desfecharam um ataque contra o Egito em 29 de outubro de 1956. Porém, a União Soviética, aliada do Egito, e os Estados Unidos, temerosos da instabilidade na região, pressionaram os três atacantes a recuar. Vencido no campo de batalha, Nasser saiu vitorioso da luta política.
Enquanto isso, os palestinos começaram a trilhar um caminho rumo à formação de grupos organizados. Em 1959, foi criado o al-Fatah (a vitória) por árabes residentes no Kuwait. Os três fundadores mais importantes foram Yasser Arafat, Abu Yiad e Abu Jihad. Outros grupos foram criados, como a Frente Popular para a Libertação da Palestina - FPLP, de orientação marxista.
Nasser, se apresentando como o líder do pan-arabismo, tomou para si a tarefa de “libertar” a Palestina. Em 1964, temendo a expansão e a independência dos grupos palestinos, Nasser e alguns líderes palestinos exilados criaram a Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Contudo, muitos líderes palestinos se recusaram a ingressar na OLP, inclusive Arafat.
Em 1967, algo de grandes proporções ocorreu no Oriente Médio. Após meses de deterioração das relações e de agravamento dos confrontos, Egito, Jordânia e Síria entraram em guerra com Israel em junho. Após 6 dias, os israelenses derrotaram os três oponentes. Desde então, a guerra é conhecida como a Guerra dos Seis Dias.
Porém, não foi somente pela estrondosa vitória militar israelense que essa guerra é importante. Ao vencer a guerra, Israel ocupou uma grande extensão territorial. Ocupou a Faixa de Gaza e a Península do Sinai do Egito; ocupou a Cisjordânia, inclusive Jerusalém Oriental, da Jordânia; e ocupou as colinas de Golã da Síria.



            Após o fim dos confrontos, toda a Palestina que havia sido parte do Mandato Britânico ficou sob controle israelense. A comunidade internacional reagiu. A ONU aprovou a resolução 242, que pedia a retirada de Israel dos territórios ocupados. Israel devolveu a Península do Sinai ao Egito em 1979 e se retirou da Faixa de Gaza em 2005. Mas se mantém na Cisjordânia até hoje, onde os sucessivos governos israelenses construíram assentamentos judaicos.
Com a estrondosa vitória, Israel passou a ser visto como praticamente imbatível no campo de batalha. Por outro lado, os Estados árabes foram vistos como incapazes de tomar para si a tarefa de prover um Estado para os palestinos. 
Ao mesmo tempo, uma mudança na balança de poder entre palestinos e países árabes ocorreu em 1968. Após a ocupação militar da Cisjordânia por Israel, o Fatah montou um foco guerrilheiro em Nablus, que desferia uma série de atos guerrilheiros contra civis e militares israelenses. Quando o exército de Israel se dirigiu para a localidade de Karameh na tentativa de desbaratar o foco guerrilheiro, os palestinos reagiram e repeliram os israelenses. Desde então, o episódio ficou conhecido como Batalha de Karameh. O Fatah viu seu prestígio crescer enormemente. Em 1969, Yasser Arafat foi eleito presidente da OLP. A OLP, assim, passou a representar os palestinos, e não mais estava sob controle dos Estados árabes.
Arafat iniciou uma série de medidas para tentar desmantelar o Estado de Israel e criar um Estado em toda a Palestina. Combinou violência e política para tentar criar um Estado palestino. De início, trilhou o caminho da guerrilha e do terrorismo. Na verdade, ações espetaculares contra alvos israelenses foram praticadas pelo Fatah e por outros grupos palestinos durante as décadas de 1960 e 1970, principalmente sequestros de aeronaves e assassinatos de políticos. Porém, o que mais chocou a comunidade internacional foi a invasão do alojamento de atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, em 1972, em que todos os israelenses foram mortos no momento da invasão ou na tentativa frustrada da polícia alemã de resgatar os reféns.
Quando Arafat empenhou-se em trilhar o caminho político, frequentemente foi exposto a uma posição delicada. Se apoiasse o uso da violência, perderia legitimidade em sua luta política perante a comunidade internacional. Se condenasse, perderia credibilidade entre seus seguidores. Porém, aos poucos, a ação política se apresentou como o caminho mais viável para Arafat, em especial após a morte de Nasser.
Nasser morreu em 1970 e assumiu em seu lugar Anuar al-Sadat, que a princípio parecia seguir a linha de seu antecessor. Desferiu, junto com a Síria e com a Jordânia, a guerra de outubro de 1973, conhecida como a Guerra do Yom Kippur. Os árabes, que venceram batalhas no início da guerra, tiveram que recuar diante do poderio bélico israelense. A partir de então, Sadat empreendeu tentativas de acordo com Israel. Entre 1974 e 1975, Egito e Israel celebraram acordos para divisão de tropas no Sinai. Tais contatos culminaram com os Acordos de Camp David, em 1978, em que ambos os países assinaram um acordo de paz e Israel se retirou da Península do Sinai.
Arafat, sentindo-se isolado, sem o apoio de uma potência regional, recorreu à luta política. Em 1974, Arafat foi à tribuna da Assembleia Geral da ONU e fez um discurso abrindo a possibilidade de diálogo. A OLP já era reconhecida por parte da comunidade internacional como a legítima representante dos palestinos e Arafat tornara-se a face da luta palestina. Iniciaram-se, nesse período, discursos para que fosse criado um Estado palestino nas “fronteiras de 1967”, isto é, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, territórios ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967.
Paralelamente à luta para fundar o Estado palestino, grupos armados faziam incursões violentas contra alvos israelenses. Partindo de campos de refugiados localizados nos países vizinhos a Israel, principalmente Jordânia e Líbano, os militantes palestinos causavam problemas para os países hospedeiros, já que Israel revidava com força. Os palestinos, desgostosos com as tentativas do governo da Jordânia de evitar ataques a Israel, tentaram, em 1970, derrubar a monarquia jordaniana, que respondeu de forma veemente. O resultado foi a morte de cerca de 4 mil palestinos, episódio conhecido como Setembro Negro. Muitos dos que não foram mortos, fugiram para o Líbano.
Neste país, os palestinos se envolveram nas escaramuças internas. Quando a Guerra Civil do Líbano eclodiu, em 1975, os palestinos assumiram uma posição política e no campo de batalha. Além da luta contra facções inimigas libanesas, os palestinos atacavam o Norte de Israel. Como resposta, Israel invadiu o território libanês em 1982 na chamada “Operação Paz na Galileia”. A princípio, a missão era apenas defender o Norte de Israel dos ataques palestinos. No entanto, sentindo-se fortalecido, o exército israelense, comandado por Ariel Sharon, marchou no interior do território libanês com o objetivo de chegar a Beirute e derrotar definitivamente a OLP, que tinha seu quartel-general no subúrbio da capital libanesa.
Com o elevado número de mortos israelenses na ofensiva, a sociedade israelense manifestou-se contrária às estratégias de Ariel Sharon. Depois de pesados ataques a Beirute, destruindo grande parte da cidade que era considerada a “Paris do Oriente Médio”, Israel aceitou um cessar-fogo, com a condição de que os líderes da OLP se retirassem do Líbano. Em setembro de 1982, Arafat e 8.500 seguidores rumaram para a Tunísia. Outros membros da OLP se dirigiram para a Síria, Iêmen e Iraque.
Mas ainda houve um episódio chocante envolvendo os palestinos na guerra civil libanesa. Em 1984, forças cristãs fizeram uma incursão nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, franqueados pelo exército de Israel, e cometeram um verdadeiro massacre – mais de 200 mortos, inclusive mulheres e crianças.
Enquanto isso, a situação dos palestinos que viviam sob ocupação militar na Cisjordânia e na Faixa de Gaza se deteriorava cada vez mais. Restrições econômicas e sociais se faziam sentir entre uma população que se sentia cada vez mais distante de sua liderança, espalhada pelo Oriente Médio e Norte da África. Em dezembro de 1987, eclodiu a Intifada, o levante palestino contra a ocupação israelense. Revoltados pela morte de 4 jovens em um acidente automobilístico causado por um caminhão militar israelense, os palestinos, muitos deles crianças e adolescentes, se rebelaram e atacavam os soldados israelenses com pedras e paus. O exército de Israel respondia com truculência. As imagens de crianças atirando pedras  em tanques correram o mundo. Os militares e políticos israelenses ficaram expostos a uma constrangedora situação, recebendo críticas de várias partes do mundo. Arafat, pego de surpresa, tentou canalizar o descontentamento para seus fins políticos, mas parte desse descontentamento era direcionado para a OLP.
Assim, Israel e a liderança palestina tiveram de se adequar aos novos acontecimentos e buscar uma solução política. Os lideres israelenses começaram a abandonar a rejeição a Arafat e passaram a acenar com a possibilidade de negociar com a OLP. Arafat, por sua vez, em 1988, declarou que abandonava e condenava qualquer ação terrorista. Porém, em 1990, cometeu um erro estratégico que lhe custou caro: apoiou a invasão do Kuwait pelo Iraque de Saddam Hussein.
Derrotado o Iraque, Arafat sentiu-se isolado em uma nova configuração de poder internacional. Sem a União Soviética para apoiar os palestinos, Arafat se sentiu ainda mais pressionado, em um ambiente internacional marcado pela hegemonia da única superpotência mundial, os Estados Unidos, pelo poderio militar israelense e pela ausência de um país árabe disposto a defender a causa palestina.
Em 1993, após vários meses de negociações e com a intermediação do Presidente norte-americano Bill Clinton, Yasser Arafat e Ytzak Rabin apertaram as mãos e celebraram os Acordos de Oslo, uma declaração de princípios em que os palestinos reconheciam Israel e os israelenses reconheciam os palestinos como um povo com direito a um Estado.



            Contudo, como “declaração de princípios”, os acordos precisavam de muito mais do que apertos de mãos. Necessitavam de líderes que estivessem dispostos a levar adiante o que estava escrito, algo muito mais difícil do que posar para uma fotografia.


Próxima postagem: Dos acordos de Oslo até o impasse atual (1993-2012)

terça-feira, 19 de junho de 2012

O futuro do Egito

Atualizado em 24 de junho de 2012, 14:15h.


O Egito está em uma encruzilhada. Desde a derrubada do ex-presidente Hosni Mubarak em 11de fevereiro de 2011, em meio a uma significativa revolução popular, o país ainda espera os próximos atos de uma peça que parece estar longe de terminar. As eleições presidenciais ocorridas no final de maio de 2012 tiveram como resultado a ida para o segundo turno de dois candidatos (Ahmed Shafiq e Mohammed Mursi) que, na verdade, se apresentam como dois projetos antagônicos para o futuro do Egito.
O militar Ahmed Shafiq fez parte do governo Mubarak e foi o último primeiro-ministro do governo deposto. Para muitos, ele representa a manutenção do poder dos militares na política e a derrota do movimento revolucionário.
Mohammed Mursi é o candidato do Partido Liberdade e Justiça, ligado à Irmandade Muçulmana. Para seus opositores, Mursi transformaria o Egito em uma teocracia, um governo liderado por religiosos e guiado pela sharia, a lei islâmica.
Contudo, nenhum dos dois candidatos está integralmente comprometido com a linha que seus acusadores querem lhe imputar. Nem Shafiq poderá restabelecer completamente o governo Mubarak, nem a Irmandade Muçulmana poderá impor uma política religiosa extremista. Isso porque os variados grupos que tomaram parte na queda de Mubarak possuem suas próprias convicções sobre como o poder deverá ser exercido. E após a revolução, muitos grupos não se furtam a voltar às ruas contra o que entendem ser um curso político oposto aos ideais primeiros da revolução – a construção de um regime político democrático.
Por outro lado, ambos representam forças consolidadas no panorama político egípcio que não podem ser negligenciadas. Os militares, no poder desde 1952, não são apenas uma força militar destinada a proteger o país. As Forças Armadas estão envolvidas em diversas atividades econômicas, em especial controlando grandes empresas estatais.
A Irmandade Muçulmana é uma força política considerável entre a população egípcia. Criada em 1928 como uma organização anti-colonial, lutando contra os britânicos que controlavam a política egípcia desde 1882, e pela islamização da sociedade, a Irmandade construiu uma rede assistencial que, ao longo dos anos, prestou auxílio à população mais pobre e, com isso, ganhou enorme prestígio.     
A luta atual entre Shafiq e Mursi é, na verdade, uma luta mais profunda que remonta ao início da república no Egito. Em 1952, a Organização dos Oficiais Livres, um grupo de oficiais de patentes médias, derrubou a monarquia egípcia.  Sob a liderança de Mohammed Naguib e Gamal Abdel Nasser, os Oficiais Livres instalaram a república. Como vários outros grupos sociais que queriam a queda do rei Farouk, a Irmandade Muçulmana se juntou aos Oficiais Livres na derrubada do governo. A Irmandade Muçulmana tinha atritos graves com o rei. A mando da monarquia, o fundador da organização, Hasan al-Banna, havia sido assassinado em 1949.
Porém, a parceria inicial rapidamente se deteriorou. Ao assumir a liderança efetiva do país, Nasser tinha projetos desenvolvimentistas seculares que colidiam com a percepção religiosa de sociedade da Irmandade Muçulmana. Após uma tentativa de assassinato de Nasser, a Irmandade foi banida do Egito e muitos de seus líderes foram presos. Essa foi uma época de baixa para Irmandade, já que Nasser era um líder carismático e popular, retirando eventuais adeptos e seguidores da Irmandade.
Porém, a Irmandade Muçulmana permanecia importante politicamente. Contando com sua rede de assistência social, manteve uma grande popularidade na sociedade, em especial entre os mais pobres. Além disso, a organização começou a participar de eleições após a morte de Nasser, em 1970. Mesmo banida, a Irmandade era uma ativa força eleitoral, se juntando a outros grupos de oposição e inscrevendo candidatos como independentes.
Por outro lado, ao adotar uma postura mais moderada, o grupo sofreu secessões. Durante boa parte de sua existência, a Irmandade se engajou em ações violentas. Ao seguir o curso político, vários grupos condenaram a cúpula da organização e se separaram para formar associações que se mantiveram aferradas à proposta de não se engajar em uma política que consideravam corrupta.
Durante os governos de Anuar al-Sadat (1970-1981) e Hosni Mubarak (1981-2011), a Irmandade Muçulmana se manteve ativa politicamente. Porém, não foi diretamente responsável pela derrubada de Mubarak. O levante adveio da insatisfação de muitos grupos sociais e foi liderada por jovens ativistas que se mobilizaram pelas redes sociais. Os líderes da Irmandade se juntaram às manifestações anti-Mubarak depois de um período de hesitação.
No entanto, como um dos grupos políticos e sociais mais organizados do Egito, a Irmandade conseguiu capitalizar o desejo, compartilhado por muitos setores, de uma mudança política no país. Já os grupos políticos populares que se formaram durante a revolução não foram capazes de criar um partido que se mostrasse apto a governar. Por isso, a Irmandade conseguiu uma grande quantidade de votos nas eleições parlamentares, se tornando, de fato, uma força política a ser considerada. Portanto, a Irmandade Muçulmana se constituiu como uma das principais forças políticas da era pós-Mubarak.
Contudo, os militares se mantiveram no poder após a queda de Mubarak. O real governo do país é o Supremo Conselho das Forças Armadas (SCFA), que, em teoria, passaria o governo para um civil após as eleições presidenciais. Contudo, no último dia 17 de junho, a Suprema Corte dissolveu o parlamento, eleito no início de 2012, e o SCFA passou a deter os poderes legislativos. Além disso, em uma medida legislativa, o Conselho aprovou para si a prerrogativa de controlar o orçamento. Essas medidas também criaram limitações ao poder do novo presidente, entre elas a de somente poder declarar guerra com o consentimento do SCFA.
Assim, independentemente de quem seja o próximo presidente, não exercerá o poder de maneira exclusiva. Os militares e a Irmandade Muçulmana terão que saber dialogar um com o outro. Além disso, não poderão fechar os olhos para outros atores políticos que se mantêm ativos e querem fazer valer suas opiniões no novo regime que se formará. Caso um dos dois queiram exercer um poder excessivo, o resultado será a continuação da instabilidade e a não-normalização da vida política no Egito.

Em 24 de junho de 2012, a Comissão Eleitoral declarou Mohammed Mursi o vencedor.
Pela primeira vez, desde 1952, um civil irá ocupar o cargo de Presidente da República. A posse está agendada, a princípio, para o fim do mês de junho. Contudo, como os militares ainda detêm um poder significativo, ainda resta saber como será a relação entre o novo chefe do Poder Executivo e as Forças Armadas.

Quem é Mohammed Mursi?


Mohhamed Mursi Isa' al-Ayyat nasceu em 20 de agosto de 1951, na província de Sharquia, no norte do país. Engenheiro. Tem mestrado em Engenharia pela Universidade do Cairo e Phd pela Universidade da Califórnia, Estados Unidos. Foi um ator proeminente da Irmandade Muçulmana no período Mubarak, o que o fez ser preso pelo governo anterior. Ganhou notoriedade ao criticar a corrupção e a ineficiência administrativa do governo. Exerceu um mandato parlamentar entre 2000 e 2005, como independente. Foi um dos fundadores do Partido Liberdade e Justiça. Porém, não era o candidato preferido pela Irmandade Muçulmana. Ele só foi alçado à condição de candidato da organização após o pré-candidato do partido, Khairat al-Shater, ser desqualificado para concorrer. No primeiro turno, obteve 24% dos votos. No segundo, venceu com 51,73%.