Diariamente, somos bombardeados por informações vindas de todos os lados. Recebemos notícias, indicadores, análises, e prognósticos que chegam dos cinco continentes. Apesar da enormidade de informações, quase sempre nos vemos incapazes de compreender o que ocorre. Este blog pretende ser uma contribuição para entender esse mundo complexo. É claro, não tem a pretensão de ser um oráculo, que dê conta de tudo o que ocorre no mundo, mas uma busca incessante de entender o que acontece à nossa volta.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Dois anos de revolta na Síria

Atualizado em 24 de março de 2013

Exatamente há dois anos, em 15 de março de 2011, teve início a revolta na Síria contra o Presidente Bashar al-Asad. Inicialmente uma onda de manifestações pacíficas, a revolta se transformou em uma guerra civil para derrubar o governo. (Ver O que está acontecendo na Síria?). Estatísticas indicam que, nesses 24 meses, mais de 70 mil pessoas tenham perdido a vida no país e mais de 1 milhão de sírios tenham se tornado refugiados.
Agora, dois anos após o início da revolta, como está a realidade no terreno? Quais são as perspectivas de fim do conflito? Qual o papel da comunidade internacional?



A realidade no terreno permanece extremamente grave. Os números de mortos e refugiados não param de crescer. Há na Síria uma verdadeira crise humanitária. São frequentes e chocantes as imagens de civis, especialmente crianças, mortos ou feridos pelas tropas governamentais. Além disso, os refugiados sírios na Turquia, Líbano e Jordânia passam por imensas dificuldades.

Quanto ao aspecto militar, é inegável que os rebeldes se tornaram, de fato, um exército inimigo que luta contra o exército governamental dentro das fronteiras do país. Ou seja, é evidente que há uma guerra civil na Síria, a despeito da fala de Bashar al-Asad, que diz que se trata de uma tentativa terrorista de derrubá-lo com apoio internacional (leia-se Estados Unidos e Israel).
O chamado Exército Livre da Síria - ELS (Ver Quem é a oposição na Síria?) tem obtido ganhos territoriais significativos. As tropas rebeldes controlam nacos do território sírio, conseguiram ocupar partes da fronteira com a Turquia e tomaram bases militares que eram estratégicas para governo. Além disso,  partes de cidades importantes estão sob efetivo controle do ELS, inclusive na capital Damasco e em Aleppo, centro econômico e maior cidade do país. No entanto, um dos grandes trunfos do ELS é sua  capacidade de mobilidade. Quando os comandantes militares rebeldes percebem que um dado território está prestes a ser retomado pelo governo, se retiram e atacam em outra localidade, impedindo que o exército governamental use todo seu poder de fogo em uma batalha.
O ELS tem obtido ganhos também em sua campanha publicitária. Imagens mostrando os rebeldes derrubando helicópteros do exército governamental servem como importante fonte de propaganda para sua causa.

As perspectivas para a solução do conflito parecem distantes, contrariando algumas análises iniciais que diziam que o destino de Bashar al-Asad estava traçado e que sua derrubada era certa. Na verdade,  há um impasse na Síria. Nem as tropas governamentais conseguem vencer os rebeldes, nem o ELS consegue derrubar o governo. Isso se deve, em parte, à divisão da própria sociedade síria. Alguns grupos sociais sírios, como os cristãos, os alauítas e alguns segmentos econômicos, veem com temor a derrubada do governo, o que poderia causar, segundo seus temores, uma guerra sectária ou o controle do país por um grupo extremista que perseguiria as minorias étnicas e religiosas. Assim, tais grupos continuam a fornecer apoio ao presidente Bashar al-Asad.
Além disso, diferentemente do que ocorreu na Líbia, a comunidade internacional se recusa a prestar um apoio militar mais contundente ao ELS. Os líderes das potências ocidentais temem que as armas enviadas para ajudar os rebeldes caiam em mãos de grupos terroristas, pois há sinais evidentes de participação de grupos extremistas islâmicos atuando contra o governo de Bashar al-Asad, a quem acusam de ser ou um líder secular ou de ser um apóstata alauíta (os alauítas são um grupo religioso saído do ramo xiita do Islã).  Os Estados Unidos se limitam a enviar equipamentos de comunicação, materiais médicos e alimentos. Pelo menos por enquanto, está fora de questão o envio de armas norte-americanas aos rebeldes sírios. Contudo, há claros indícios de que os adversários regionais da Síria - principalmente Arábia Saudita e Qatar - têm enviado armas para os rebeldes (Ver A internacionalização dos conflitos na Síria).

As tentativas de mediação internacional ainda não deram frutos. Primeiro, Kofi Annan, ex-Secretário-Geral da ONU, foi enviado ao país para buscar uma saída negociada. Porém, diante das dificuldades que se apresentaram insuperáveis, Annan desistiu. Em agosto de 2012, assumiu essa missão o argelino Lakhdar Brahimi, que, até o momento, também não obteve qualquer ganho significativo quanto à resolução do conflito.
Soluções diplomáticas na ONU também têm falhado, pois qualquer tentativa de intervenção internacional direta será certamente bloqueada por Rússia e China, aliados da Síria e duas das potências que possuem poder de veto no Conselho de Segurança.

Enquanto isso, há dúvidas sobre a efetividade e representatividade da oposição política. Em novembro de 2012, os diversos grupos políticos opositores se uniram em Doha, no Qatar, e formaram a Coalizão Nacional Síria - CNS. Esse grupo obteve importantes ganhos diplomáticos. A França o reconheceu como o "legítimo representante do povo sírio", os Estados Unidos admitiram sua legitimidade e a Liga Árabe concedeu à CNS o assento reservado à Síria. Porém, com a situação militar indefinida, é difícil ver uma importância mais que nominal nesse grupo. Como Bashar al-Asad não aventa a possibilidade de negociar uma transição política, a CNS continuará a ser uma espécie de "governo no exílio", completamente distante dos grupos opositores que atuam dentro da Síria. Somente após a derrubada, pelas armas, de Bashar al-Asad, a CNS poderá exercer um papel verdadeiro.
Para piorar, a própria Coalizão enfrenta rachas internos. Em 19 de março de 2013, a CNS elegeu como Primeiro-Ministro o sírio-americano Ghassan Hitto para exercer o poder executivo nas áreas controladas pelos exércitos rebeldes no norte e no leste da Síria. No entanto, no próprio processo de eleição, houve membros do CNS que boicotaram o pleito. Ainda pior, líderes militares do Exército Livre da Síria não reconheceram Hitto como seu representante, apesar de manifestações favoráveis a ele inicialmente.
Além disso, o Presidente da Coalizão, Ahmed Moaz al-Hatib, renunciou em 24 de março, se dizendo frustrado pela falta de progresso na ajuda internacional e acusando certos grupos de quererem tomar para si a revolução por conta de interesses particulares.

Desse modo, lamentavelmente, esses dois anos de revolta parecem ser apenas o início de uma guerra civil longa e sangrenta.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Crise nas Coreias


Nesta semana, temos assistido à crise entre as Coreias do Norte e do Sul. Os norte-coreanos emitiram ameaças de romper a frágil trégua entre os dois países da pequena península asiática, enquanto os sul-coreanos divulgaram que realizariam exercícios militares em conjunto com os Estados Unidos.
Como podemos compreender as tensas relações entre as duas Coreias?

O conflito remonta ao início da Guerra Fria, mais especificamente à divisão da península ao fim da Guerra da Coreia (1950-1953).
Durante a Segunda Grande Guerra, a península coreana  era parte do Império Japonês. Ao fim da guerra, com a derrota do Japão, os até então aliados Estados Unidos e União Soviética decidiram partilhar a ocupação do território. Escolheram como ponto de demarcação de suas tropas o paralelo 38ºN. Os soviéticos ocuparam o norte da Península Coreana, com a ajuda de aliados locais, e os norte-americanos passaram a ocupar a parte sul.
Em 1948, os soviéticos desocuparam o norte do território, quando foi criada a República Popular da Coreia do Norte, sob controle do Partido Comunista local, presidida por Kim Il Sung. E em 1949, os Estados Unidos retiraram-se do Sul, dando origem à República da Coreia, presidida por Syngman Rhee. O paralelo 38ºN foi tomado como a fronteira entre os dois novos países.

As relações entre a União Soviética e os Estados Unidos já estavam bastante precárias no final da década de 1940 e a península da Coreia era um dos pontos do globo onde o conflito entre as duas superpotências era travado. Ao se retirarem do norte da península, os soviéticos passaram o poder aos comunistas locais e não permitiram que a ONU realizasse um referendo sobre a reunificação do território. Tal postura criou uma profunda contrariedade por parte do governo dos Estados Unidos. Por outro lado, as relações entre as forças locais eram de animosidade aberta, em parte reflexo do confronto entre soviéticos e norte-americanos.
Diante disso, as relações entre as duas Coreias eram tensas. Ambos os governos reivindicavam o governo de toda a península e frequentemente havia escaramuças fronteiriças. Porém, em 25 de junho de 1950, o governo norte-coreano reuniu suas tropas e - o que para muitos foi uma grande surpresa - invadiu a Coreia do Sul. Prontamente houve reações sul-coreanas e norte-americanas a essa medida e a guerra teve início.
Após intensos combates, em que os Estados Unidos forneceram armamentos para seus aliados do Sul e a China entrou na guerra ao lado do Norte, a Guerra da Coreia terminou em 1953 com um acordo de armistício. A fronteira permaneceu fixada no paralelo 38ºN. Não houve um tratado de paz, mas uma manifestação de término das hostilidades. Desde então, as Coreias não mantêm relações diplomáticas e vivem oficialmente em estado de guerra. A situação se manteve estável durante boa parte do século XX, embora crises ocasionais ocorressem.


No entanto, ao longo do tempo, ocorreram algumas tentativas de reaproximação entre os dois vizinhos. No início dos anos 2000, parecia que um acordo de paz estava a caminho. Em 2000, o Presidente da Coreia do Sul fez uma visita ao Norte e nas Olimpíadas de Sidney, também em 2000, as delegações dos dois países entraram juntas na cerimônia de abertura dos jogos, sob uma mesma bandeira. Contudo, todos esses empreendimentos falharam em obter a paz entre os dois países ou uma unificação da península.
A situação começou a se agravar durante o governo de Kim Jong-Il (filho de Kim Song Il, morto em 1994), por conta do programa nuclear norte-coreano. Em 2002, o governo norte-coreano resolveu reativar seu programa nuclear e passou a não permitir inspeções dos oficiais da Agência Internacional de Energia Atômica - AIEA. Em 2006, o governo anunciou que havia explodido um artefato nuclear.
A partir de então, os norte-coreanos adotam uma política pendular entre uma aproximação e um distanciamento em relação à comunidade internacional. Praticamente isolado, o país depende fundamentalmente da China, seu maior aliado e parceiro comercial, para obter alimentos, combustíveis e armas.
Em dezembro de 2011, Kim Jong-Il morreu e seu filho Kim Jong-Un assumiu o comando do país. Jovem, apontado por alguns como amante do entretenimento ocidental, despertou esperança de que poderia haver uma nova tentativa de aproximação com a Coreia do Sul e com os Estados Unidos, assim como o abandono do programa nuclear. Porém, rapidamente, o jovem líder mostrou que manteria a postura política de seu pai e de seu avô.
No início de 2013, o governo norte-coreano anunciou a explosão de mais um artefato nuclear. A comunidade internacional adotou sanções contra o país por meio do Conselho de Segurança da ONU, contando, inclusive, com o voto da China.
Como reação,  Kim Jong-Un cortou a linha de comunicação com a Coreia do Sul e declarou nulos os acordos de armistício. A tensão está em um nível elevado e alguns analistas temem uma nova guerra na península coreana.
Devemos aguardar os próximos desdobramentos para vermos se tal temor irá se dissipar ou não.

sexta-feira, 1 de março de 2013

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Programa nuclear do Irã

Constantemente, vemos informações na mídia sobre o programa nuclear iraniano e sobre as duras reações dos Estados Unidos, de países europeus e de Israel. As trocas de farpas são frequentes e, o que é altamente perigoso, ouvimos severas ameaças de ataques militares contra o Irã.
Mas como podemos compreender o programa nuclear do Irã?



O impasse em torno do programa nuclear iraniano se refere à possibilidade do Irã conseguir construir armas nucleares.
Um dos principais acusadores do governo de Teerã é Israel. O governo israelense diz que o Irã deseja efetivamente ter bombas atômicas e que tais artefatos serão utilizados contra Israel, o que será uma ameaça à existência do Estado judeu. De fato, o presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad tem usado uma retórica inflamada contra Israel e nega a existência do Holocausto, para deslegitimar a existência do Estado Judeu. Diante disso, membros do governo israelense, inclusive o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu, alegam que somente por meio de ataques militares o governo iraniano irá ceder.
Muitos políticos norte-americanos concordam com essa abordagem. Contudo, o Presidente Barack Obama pretende demover os iranianos de seu programa nuclear por meio de sanções econômicas. Por outro lado, alguns analistas políticos norte-americanos sugerem que Washington busque negociar com Teerã.
Até o momento, Estados Unidos e países da União Europeia têm aprovado sanções contra o Irã, especialmente no ramo de petróleo. Sem o dinheiro advindo da venda do produto, o Irã vem passando por  grandes dificuldades econômicas.
O governo do Irã rejeita todas as acusações. Os líderes iranianos dizem que o programa nuclear tem fins pacíficos, destinado a produzir energia. Ressaltam que desde 1968 o Irã tornou-se signatário do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), um acordo que prevê que os países signatários não construirão armas nucleares e que os detentores de tais armas se comprometem a desmantelar seus arsenais. Em algumas ocasiões, os líderes iranianos acenam com a possibilidade de negociação.
Os países adversários dizem que tais argumentos são mentirosos e que as propostas de negociação são apenas tentativas de ganhar tempo até que não haja mais como impedir a construção da bomba.
Na verdade, muitos analistas internacionais entendem que Teerã pode estar, de fato, em busca de um artefato militar nuclear. Contudo, por motivos defensivos, principalmente por conta das relações conturbadas do Irã com os Estados Unidos.


As relações entre o Irã e os Estados Unidos 

Desde o fim da década de 1970, o Irã é governado por clérigos muçulmanos xiitas.
Em 1979, uma revolução popular derrubou o Xá Mohammed Reza Pahlevi, que comandava o Irã com mão de ferro, e que contava com o apoio dos Estados Unidos. Embora houvesse uma diversidade de grupos lutando contra o Xá (como liberais e comunistas), os xiitas conseguiram assumir o controle da revolução e direcionar o novo regime de acordo com seus pressupostos religiosos. O Irã depois de 1979 se tornou a República Islâmica do Irã, sob a liderança do Aiatolá Ruhollah Khomeini.

Manifestantes seguram um cartaz com fotografia do
Aiatolá Khomeini durante a Revolução de 1979

Muitos iranianos viam os Estados Unidos com extrema hostilidade, pois em 1953 um golpe que contou com a ampla contribuição da CIA havia derrubado o Primeiro Ministro Mohammed Mossadegh, um líder nacionalista que tinha o objetivo de nacionalizar as companhias de petróleo do país, e colocado o Xá novamente no controle absoluto do Irã. Tal animosidade permaneceu após a derrubada da família Pahlev do poder. Os norte-americanos eram ardorosos apoiadores do Xá e este, quando fugiu do Irã, se refugiou nos Estados Unidos. Muitos iranianos acreditavam que os Estados Unidos planejavam reentronizar o Xá no poder. Com isso, as relações entre os dois países se deterioraram nos meses subsequentes à revolução. A hostilidade culminou na crise dos reféns, quando estudantes iranianos invadiram a Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em novembro de 1979, e fizeram 66 pessoas cativas. A crise teve imensa repercussão internacional e sérias consequências para a política norte-americana. O governo dos Estados Unidos fez duas tentativas frustradas de libertar os reféns e o Presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981) saiu do episódio extremamente enfraquecido. A crise dos reféns foi um dos principais problemas de política externa que levaram à sua derrota para Ronald Reagan (1981-1989) nas eleições de 1980. Um acordo entre Irã e Estados Unidos levou à libertação dos reféns (que permaneceram cativos durante 444 dias) em 20 de janeiro de 1981.
No entanto, tal acordo não aproximou Washington e Teerã. Em 1980, O Iraque, comandado por Saddam Hussein, invadiu o Irã por conta de disputas de fronteira. Na verdade, para o tipo de política apregoada por Saddam Hussein (autoritária, mas de fundamentos seculares), a revolução iraniana representava uma séria ameaça, pois poderia estimular os xiitas iraquianos (a maioria da população do país) a se insurgir contra o governo inspirados por um fervor religioso. Do mesmo modo, para os Estados Unidos, a Revolução Iraniana era altamente perigosa, pois poderia se espalhar para outros países, dando origem a movimentos revolucionários contra governos amigos, como a insurgência contra a família real da Arábia Saudita, um importante aliado norte-americano. Estavam postas as condições que possibilitaram a controversa aliança entre Saddam Hussein e os Estados Unidos contra o Irã.
Desde então, a elite dirigente xiita iraniana entende que os Estados Unidos e seu aliado regional Israel tramam para derrubá-la do poder. Tal percepção se agravou após o 11 de setembro, quando o Presidente norte-americano George W. Bush invadiu o Afeganistão (2001) e Iraque (2003) e colocou o Irã e a Coreia do Norte na lista do "Eixo do Mal", como países que patrocinam o terrorismo. Assim, não é coincidência que o Irã tenha rompido com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) exatamente em 2003.
Até então, inspetores da AIEA faziam frequentes visitas aos reatores iranianos e não haviam detectado sinais de descumprimento do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, do qual o Irã é signatário.
Por conta disso, muitos analistas e estudiosos acreditam (avaliação compartilhada pelo autor deste blog) que o Irã almeja ter a bomba atômica. Porém, não para atacar e tentar destruir Israel, mas por razões defensivas, já que a elite dirigente iraniana julgou que seria a próxima a ser derrubada por uma invasão norte-americana, depois dos talibãs afegãos e de Saddam Hussein - afinal de contas, a invasão do Iraque mostrou que mesmo um país não apoiador da al-Qaeda poderia ser invadido e seu governo derrubado. Armados com ogivas nucleares, os iranianos ameaçariam Israel caso os Estados Unidos planejassem uma operação militar contra os governantes xiitas (durante a Guerra do Golfo, em 1991, Saddam Hussein lançou mísseis contra Israel como retaliação). E é por isso que um Irã nuclear provoca temor em muitos israelenses. Isso, por sua vez, explica a disposição do Primeiro Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em iniciar uma guerra contra o Irã antes que os iranianos consigam obter a bomba atômica.
Por outro lado, a elite dirigente xiita iraniana teme o movimento convencionalmente chamado de "Primavera Árabe", uma onda de revoltas que vem abalando o Oriente Médio e o Norte da África desde o final de 2010 (embora o Irã não seja um país árabe - os iranianos são persas). Sob o ponto de vista iraniano, tal onda de revoltas pode estimular movimentos similares internamente, que podem contar com auxílio externo (em 2009, eclodiu uma onda de protestos contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, movimento que recebeu o apoio de norte-americanos e europeus). Além disso, os Estados Unidos e a União Europeia agiram efetivamente em ajuda à revolução na Líbia, pois somente com a ajuda de bombardeios da OTAN os rebeldes líbios foram capazes de derrubar o ditador Muammar al-Qadafi. O governo iraniano entende que se um movimento revolucionário emergir no país, os Estados Unidos podem ajudar os rebeldes a derrubar o regime islâmico. Dotados de armas nucleares, os líderes iranianos poderão efetivamente se manter no poder, pois a intervenção externa será muito menos provável.
Outros analistas discordam da interpretação que diz que o Irã age defensivamente, alegando que o governo iraniano sabe que os Estados Unidos não têm condições políticas e econômicas para empreenderem uma nova intervenção militar no Oriente Médio. Porém, a elite dirigente iraniana planeja olhando para um horizonte muito à frente. Para eles, se hoje não é possível uma operação militar norte-americana, nada garante que no futuro tais condições não estejam acessíveis. Os xiitas que ocupam o governo do Irã almejam se eternizar no poder e entendem que devem se preparar para uma ameaça de longo prazo à sua dominância política. Para esse objetivo, entendem que ter à sua disposição as armas mais destrutivas já construídas pelo homem é algo fundamental.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O que está acontecendo na Argélia?

Atualizado em 21 de janeiro de 2013, 10:20h (Brasília)

Na manhã do dia 16 de janeiro, grupos extremistas islâmicos invadiram uma usina de extração de gás  natural na localidade de In Amenas, no Leste da Argélia, tomando centenas de trabalhadores como reféns. O governo argelino ordenou uma ação militar para retomar a usina, que causou a morte de sequestradores e reféns. A situação tornou-se bastante difícil e temia-se um desfecho trágico.
Mas, exatamente, o que está acontecendo na Argélia?




Na verdade, inicialmente, foi extremamente difícil saber com precisão o que ocorria no interior do complexo. As informações eram desencontradas e as notícias contraditórias.
Após dias de informações desencontradas na imprensa internacional, foram apontados dois grupos, ambos manifestando ligação com a rede terrorista Al-Qaeda, como prováveis responsáveis.
As primeiras informações apontavam para o grupo que se denomina "Al-Qaeda no Maghreb Islâmico" (AQMI). Segundo as primeiras notícias, o grupo havia assumido o ataque e declarado que sua ação foi uma retaliação à ação francesa no Mali (Ver O que está acontecendo no Mali?).
Posteriormente, outro grupo foi apontado como responsável: os "Batalhões que Assinam com Sangue", grupo liderado por Mokhtar Belmokhtar, um extremista que lutou contra os soviéticos no Afeganistão na década de 1980. Também chamado de "Mestre de um olho só" (por ter perdido um olho em uma de suas várias batalhas) ou "Senhor Marlboro" (por ser um dos grandes chefes do tráfico de cigarros pelo Deserto do Saara), Belmokhtar já havia realizado sequestros de estrangeiros anteriormente. Após passar vários anos no exterior, retornou à Argélia em 1992. Foi um dos líderes do AQMI nos últimos anos, mas rompeu com esse grupo em 2012 por divergências referentes às operações no Mali. Apesar disso, afirma que se mantém seguidor do ideário da Al-Qaeda.
Agora, após o desfecho do episódio, foi confirmado que foi essa organização a responsável pela invasão, após Belmokhtar divulgar uma declaração afirmando a autoria.

A invasão em In Amenas é mais um episódio da escalada de violência no Norte da África, que há anos vem sofrendo com a ação de extremistas islâmicos.
Muitos analistas apontaram inicialmente para o AQMI porque este é o principal grupo islamista  em atuação na região. O grupo possui grande poder de fogo; estima-se que seus seguidores estejam entre 600 e 800 homens, dispersos pela região do Sahel e do Saara; e o grupo tem conseguido realizar ataques sem que forças governamentais o contenham. Na verdade, o grupo tem se beneficiado da fraca presença do Estado na região. Por conta disso, o grupo conseguiu fontes de financiamento por meio de sequestros de estrangeiros, contrabando de cigarros e de narcóticos. Além disso, integrantes do AQMI adquiram armas na Líbia durante a guerra civil para a derrubada de Muammar al-Qadafi.

A proliferação de agrupamentos extremistas islâmicos na Argélia remonta à guerra civil na década de 1990,  quando grupos islamistas adotaram a luta armada contra o governo secular argelino.
Os problemas começaram quando o governo cancelou o segundo turno das eleições parlamentares de 1992, em que uma vitória da coalizão de partidos islamistas do país era dada como certa.
Dessa forma, os grupos islamistas, que até então buscavam se integrar ao processo político, se radicalizaram e adotaram a ação armada contra o governo. O primeiro grupo extremista surgido nesse contexto foi o "Grupo Armado Islâmico" (GAI). Os militantes do GAI eram conhecidos por seus métodos extremamente violentos, atacando alvos governamentais e civis. Devido à brutalidade de suas ações, gradativamente perdeu legitimidade. Em 1998, um grupo de militantes rompeu com a liderança do GAI e formou o "Grupo Salafista para a Pregação e o Combate" (GSPC).
Rapidamente, o GSPC tornou-se bastante popular, ao se apresentar como uma fonte de oposição eficaz ao governo (que, por sua vez, usava métodos violentos contra os opositores), ao mesmo tempo em que não cometia ataques indiscriminados contra civis.
Porém, em 1999, o governo concedeu anistia a esse grupo e a outros grupos islamistas menores. A intensidade da luta arrefeceu, bem como os números de militantes do GSPC.
O GAI (grupo de onde saiu o GSPC) se recusou a aceitar a anistia e continuou sua luta contra o governo, declarando que seu objetivo era a construção de um estado islâmico na Argélia.
Paralelamente a isso, alguns integrantes do GSPC não aceitaram a anistia. E em 2000 os líderes do grupo declararam que haviam se juntado à Al-Qaeda. Porém, somente em 2006, o então segundo homem da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, reconheceu a organização como parte da jihad no Norte da África.
Em 2007, os líderes do GSPC declararam que o novo nome do grupo era "Al-Qaeda no Maghreb Islâmico". Desde então, o grupo tem estendido seu campo de atuação para outros países da região, adotando uma estratégia e uma filosofia caras à Al-Qaeda, isto é, uma luta que cruza as fronteiras dos estados estabelecidos. A partir desse momento, integrantes do AQMI passaram a atuar em outros países da região do Saara e do Sahel, como Mali, Marrocos, Níger, Tunísia, Chade e Mauritânia. Há indícios, inclusive, de sua participação no ataque à Embaixada norte-americana em Benghazi, na Líbia. Além disso, não só os ataques se internacionalizaram, mas também a militância tornou-se internacionalizada, outra  característica da Al-Qaeda. Atualmente, entre os integrantes do AQMI, além de argelinos, há combatentes saídos do Mali, Tunísia e Líbia.
Há temores de países europeus que células do AQMI possam cometer ataques na Europa. Em 2007, policiais franceses descobriram uma célula do grupo em Paris e, em 2008, autoridades espanholas prenderam oito homens com ligações com o AQMI.
Por fim, com a ascensão dos "Batalhões que Assinam com Sangue", fruto do racha no AQMI, emerge mais um grupo extremista na região, o que complexifica ainda mais a situação.
O fraco poder militar dos Estados da região, a porosidade das fronteiras, a proliferação de armas decorrente dos conflitos na Líbia e no Mali e as características naturais da região facilitam significativamente o aumento do poder dos grupos extremistas no Norte da África.

A invasão ao complexo de extração de gás natural de In Amenas tem implicações mais amplas que a política regional. A usina é operada por uma associação entre as empresas British Petroleum (Grã-Bretanha), Statoil (Noruega) e Sonatrach (Argélia). Além disso, trabalham na empresa, centenas de empregados estrangeiros - noruegueses, britânicos, japoneses, norte-americanos, franceses etc. Muitos deles estavam entre os reféns e alguns foram mortos.


Desfecho
Por volta das 14h do dia 19 de janeiro, no horário de Brasília, foi anunciado que uma operação militar argelina empreendeu um "ataque final" e conseguiu pôr fim à crise. Como resultado da operação, 16 reféns foram libertados e 7 reféns e 11 sequestradores foram mortos.
O total de mortos em todo o episódio ainda não foi esclarecido. Os últimos números fornecidos pelas autoridades argelinas apontam para 81 mortos. Porém, esta ainda não é a contagem oficial.
Segundo números fornecidos por militares, foram libertados 685 reféns argelinos e 107 estrangeiros ao longo dos quatro dias de operações.
A despeito da (custosa) vitória do governo de Argel sobre os militantes extremistas, a região continua sob ameaça de novos ataques.

Vocabulário:

Maghreb - palavra árabe que significa "Ocidente". Define-se hoje como o Noroeste da África - região que engloba Argélia,  Tunísia, Marrocos. Alguns incluem a Líbia.

Sahel - Região semi-árida que faz transição entre o Deserto do Saara, ao Norte, e as florestas úmidas ao Sul. Faixa que se estende da costa atlântica ao leste do continente , cobrindo os territórios da Mauritânia, Níger, Mali, Burkina Faso, Nigéria, Chade e Sudão.