Diariamente, somos bombardeados por informações vindas de todos os lados. Recebemos notícias, indicadores, análises, e prognósticos que chegam dos cinco continentes. Apesar da enormidade de informações, quase sempre nos vemos incapazes de compreender o que ocorre. Este blog pretende ser uma contribuição para entender esse mundo complexo. É claro, não tem a pretensão de ser um oráculo, que dê conta de tudo o que ocorre no mundo, mas uma busca incessante de entender o que acontece à nossa volta.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O que está acontecendo no Egito?

Atualizado em 14 de agosto de 2013, 15:30h (horário de Brasília)

Nos últimos dias, temos assistido a um agravamento das tensões no Egito. Desde o dia 3 de julho de 2013, quando o Presidente Mohammed Mursi foi deposto pelos militares, são frequentes os choques entre o as forças armadas e apoiadores do presidente deposto, especialmente membros da Irmandade Muçulmana. Em 14 de agosto de 2013, centenas de pessoas foram mortas quando o Exército agiu para desocupar uma praça no Cairo onde membros da Irmandade Muçulmana estavam reunidos exigindo a recolocação de Mursi no cargo. O mundo olha atentamente o que está ocorrendo no país.
Mas o que exatamente está acontecendo no Egito?



O Egito passa por um período de grande instabilidade política desde que enormes manifestações populares derrubaram o ex-Presidente Hosni Mubarak, em 25 de janeiro de 2011.
Mubarak governava o Egito desde 1981, quando assumiu o cargo após o assassinato de Anwar al-Sadat. Seu governo foi marcado pelo autoritarismo, pelas eleições de fachada e pela grande influência das Forças Armadas. Na política externa, foi caracterizado pelo alinhamento aos Estados Unidos e pela colaboração com Israel no controle da Faixa de Gaza (O Egito assinou um acordo de paz com Israel em 1978).
Inspirados pela revolução na Tunísia, que derrubou o ditador Zine al-Abidine Ben Ali, em janeiro de 2011, os egípcios foram à Praça Tahrir (Praça da Libertação), no centro do Cairo, exigir a renúncia de Hosni Mubarak. Após vários dias de tumultos e ataques de tropas governamentais aos manifestantes, Mubarak renunciou.
Abriu-se, após isso, um momento de indefinição política. Após a queda de Hosni Mubarak, assumiu o poder no país, provisoriamente, o Comitê Superior das Forças Armadas (CSFA). A política do governo provisório de postergar as eleições presidenciais gerou enormes protestos. Muitos acusavam o CSFA de não permitir a transição para uma política verdadeiramente democrática, já que as Forças Armadas eram um dos pilares do governo Mubarak.
Decorreu um momento de luta política para que uma eleição presidencial fosse agendada, em que os egípcios pudessem ir às urnas decidir democraticamente quem seria o primeiro presidente pós-Mubarak. Após hesitações, o CSFA concordou em agendar eleições para meados de 2012.
À medida que o pleito se aproximava, iniciaram-se movimentações para a organização de partidos políticos. O movimento da Praça Tahrir foi, em grande parte, um levante popular, ao qual os grandes partidos e líderes opositores só se juntaram posteriormente. Como foi um movimento espontâneo, carecia das bases para organizar um partido político com força para obter uma vitória.
Quem se destacou nesse processo foi a Irmandade Muçulmana. Contando com uma organização consolidada há várias décadas (o grupo foi criado em 1928), a Irmandade Muçulmana foi capaz de arregimentar um grande número de adeptos, dotados do impulso ideológico para buscar o poder político.
Nas eleições presidenciais de junho de 2012, dois candidatos foram para o segundo turno: Ahmed Shafik, ligado aos setores políticos próximos a Mubarak, e Mohammed Mursi, candidato do Partido da Justiça e Liberdade, agremiação ligada à Irmandade Muçulmana.
Mursi saiu vencedor no segundo turno, o que alçou a Irmandade Muçulmana, pela primeira vez em sua história, ao efetivo poder político no Egito. Além disso, o Partido da Justiça e Liberdade obteve a maioria dos assentos nas eleições parlamentares no início de 2012, o que lhe garantiu o poder de guiar a transição política no país, ao terem em suas mãos a capacidade de escrever a nova constituição.
O crescimento do poder da Irmandade Muçulmana assustou muitos políticos, especialmente os setores seculares e liberais, os agrupamentos populares e as minorias (como os cristãos coptas). Também gerou preocupação na comunidade internacional, especialmente em Israel e nos Estados Unidos, que temiam um governo islâmico no Egito, o que poderia alterar o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
No entanto, Mursi parecia indicar um caminho de moderação. Em um primeiro momento, acreditava-se que a constituição a ser preparada para o novo regime político egípcio apresentaria fundamentação democrática e liberal. Por sua vez, isso fez com que Mursi começasse a sofrer críticas dos salafistas (que queriam que a constituição fosse baseada na Shari'a, a lei islâmica) e entre alguns membros da Irmandade Muçulmana.
Diante disso, a tendência se alterou e vários artigos da constituição passaram a incorporar elementos da Shari'a. Embora tenha referências às liberdades do povo e à proteção de judeus e cristãos, o projeto de constituição, em seu artigo 2, diz que "o Islã é a religião oficial do Egito" e que "os princípios da Shari'a são a principal fonte de legislação".
Revoltados com a guinada religiosa, os secularistas, os liberais, os grupos de esquerda, os cristãos e as feministas se reuniram em manifestações contra a política do presidente, acusando Mursi de estar transformando o Egito em uma "teocracia" e afirmando que as minorias e as mulheres seriam oprimidas por uma elite dirigente muçulmana masculina.  Mursi reagiu aos protestos dizendo que quem não concordasse com a constituição proposta, que votasse contra no referendo. Isso não aliviou as críticas, já que os membros da oposição dizem ser impossível realizar uma discussão séria em tão pouco tempo.
Para piorar a situação política, Mohammed Mursi emitiu um decreto no fim de novembro que lhe concedia amplos poderes, inclusive dando-lhe maior poder que a Suprema Corte do país. Vários setores da sociedade egípcia passaram a condenar o decreto, afirmando que Mursi desejava se tornar um ditador pior que Mubarak.
Com isso, a Praça Tahrir voltou a figurar como centro dos protestos políticos e a violência eclodiu novamente. Prédios da Irmandade Muçulmana foram incendiados, as ruas do Cairo se tornaram um campo de batalha e confrontos entre islamistas e secularistas disseminaram-se para outras cidades.
Diante da revolta, Mursi revogou o decreto que amplia seus poderes.

Enfim, nos dias 15 e 22 de dezembro de 2012, foram realizadas as votações. Segundo a autoridade eleitoral egípcia, a Constituição foi aprovada com 63,8% dos votos. Oposicionistas acusam o governo de fraude. O presidente afirmou que as eleições foram legais e justas. Porém, o que ficou claro foi o boicote de grandes setores sociais no pleito. A abstenção foi de 68%. Ou seja, a Constituição foi aprovada por uma minoria dos egípcios aptos a votar.

No início de 2013, a situação piorou consideravelmente. Após a condenação de 21 pessoas pelo massacre durante um jogo de futebol em meados de 2012 provocou enormes manifestações, que redundaram em confrontos com policiais, em que resultaram em mais mortos.
O Presidente decretou uma lei de emergência que determinava toque de recolher entre 9 da noite às 6 da manhã. Além disso, permitia que qualquer cidadão pode ser suspeito aos olhos das forças policiais.
Os opositores criticaram de forma contundente o governo por tais medidas, que eles veem como a construção de uma ditadura.

Ao longo do ano, várias manifestações ocorreram contrárias ao Presidente. Os militares também começaram a mostrar insatisfação com o Presidente, já que Mursi adotou medidas que enfraqueceram as Forças Armadas. O clima político encaminhava-se para uma situação mais grave. No final de junho de 2013, os opositores começaram um movimento mais contundente de protestos. A Praça Tahrir voltou a ser palco de manifestações. Grupos contrários ao Presidente invadiram e incendiaram a sede da Irmandade Muçulmana. Choques entre opositores de apoiadores de Mursi causaram 16 mortes em dois dias.
Como o caos estava tomando conta do Cairo e de outras cidades do país, as Forças Armadas deram um ultimato de 48 horas ao Presidente. Como a situação não se acalmou, o Chefe do Exército, Abdel Fatah as-Sissi, anunciou, em 3 de julho de 2013, que o Presidente estava deposto.



As-Sissi anunciou ainda que a Constituição estava suspensa e que o Chefe do Judiciário, Adli Mansour, seria o Presidente interino até que novas eleições ocorram.
Apoiadores de Mursi acusam as Forças Armadas de "golpe" contra um Presidente que fora eleito democraticamente. O Exército afirma que o Presidente falhou em cumprir sua missão junto ao povo egípcio. Os ânimos estão exaltados.
Membros do Exército e políticos vêm buscando formar um governo transitório que organize eleições o mais breve possível. Chegou-se a aventar a indicação de Mohammed El-Baradei - um político secular e ex-Diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) - ao cargo de Primeiro Ministro. Porém, divergências entre os novos grupos no poder impediram que seu nome fosse efetivado. El-Baradei tem sido cotado para ocupar a Vice-Presidência.
No dia 9 de julho, uma coalizão de forças políticas, que incluíam o grupo religioso An-Nusra, concordaram em indicar como Primeiro Ministro o economista Hazem al-Bablawi. Mohammed El-Baradei foi indicado Vice-Presidente interino. No entanto, a coalizão governista é heterogênea e notam-se divergências no interior do governo, entre um grupo de oficiais militares mais "linhas-dura" e uma ala mais moderada que visa uma aproximação com os apoiadores de Mursi e são contra a concentração de poder na mão dos militares. El-Baradei chegou a criticar a ação das Forças Armadas no final de julho como "excessivo uso da força".

Enquanto isso, nas ruas, o ambiente é de caos e violência. Após a deposição de Mursi, apoiadores do ex-Presidente organizaram manifestações em massa contra o que dizem ser um "golpe" contra o Presidente eleito "legitimamente". Por outro lado, opositores de Mursi alegam que foi uma "revolução" contra um Presidente autoritário. Violentos combates entre apoiadores e opositores de Mursi, assim como entre simpatizantes do ex-Presidente e o Exército vêm provocando centenas de mortes nas últimas semanas. Em um dos episódios, simpatizantes de Mursi faziam uma manifestação em frente ao Quartel-General da Guarda Republicana. O Exército abriu fogo contra os manifestantes e o resultado foram 51 mortes. As Forças Armadas disseram que os manifestantes tentavam invadir o prédio e por isso atiraram. Os simpatizantes do ex-Presidente negam essa versão.
O episódio do dia 14 de agosto, porém, excedeu a violência precedente. Os apoiadores de Mursi estavam reunidos em torno da Mesquita Rabaa al-Adawiya, no nordeste do Cairo. Há dias o governo vinha demandando que os protestos terminassem, mas os manifestantes não abandonavam o local nem deixavam de marchar pelas ruas da capital. Então, no dia 14, o Exército chegou por volta das 7 da manhã e abriu fogo contra a multidão, matando vários manifestantes. Pelo menos 638 pessoas morreram.
O governo decretou estado de emergência por um mês que entrou em vigor às 16h (horário local, 11h pelo horário de Brasília).
No dia 15, integrantes da Irmandade Muçulmana passaram para a ofensiva. Milhares de manifestantes voltaram às ruas, em várias cidades do país, afrontando o estado de emergência proclamado no dia 14, além de incendiarem um prédio governamental no distrito de Gizé, no Cairo.
No dia 16 de agosto, a Irmandade Muçulmana convocou seus seguidores para se manifestarem no que chamaram "Dia de Fúria". Apoiadores de Mursi saíram às ruas por todo o país. Houve confrontos  entre manifestantes e policiais no Cairo, em Alexandria, Ismailyya, Damietta e Tanta. Até por volta das 15:30h (horário de Brasília), a Irmandade Muçulmana alegava que 45 pessoas foram mortas. A rede de televisão Al-Jazeera confirmou 41 mortos.
A situação no Egito permanece profundamente grave e alguns analistas políticos temem que o Egito esteja se dirigindo para uma guerra civil.


VER TAMBÉM:

A nova Constituição do Egito
Lei e política no Egito
O futuro do Egito

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O novo presidente do Irã

No último dia 14 de junho de 2013, os iranianos foram às urnas escolher seu novo presidente. Com uma expressiva votação, o que lhe garantiu a vitória ainda no primeiro turno, o clérigo Hassan Rohani foi eleito.
Mas, afinal, quem é Rohani? E qual o real papel que terá nas políticas interna e externa da República Islâmica do Irã?


Rohani é parte do bloco reformista do Irã. Opositor do atual presidente Mahmoud Ahmadinejad, ele defende uma postura diferente na política externa iraniana. Durante a campanha eleitoral, ele disse repetidas vezes que o Irã estava rumando a um caminho perigoso ao afrontar as potências ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Ele defendeu, inclusive, abrir um diálogo direto com Washington. No entanto, não deu sinais de que iria trabalhar para paralisar o programa nuclear iraniano. Por outro lado, em debates eleitorais, Rohani se posicionou assertivamente em prol de reformas políticas. Ele frequentemente propôs a discussão de tópicos como justiça, direitos civis e prosperidade econômica.

Rohani nasceu em 13 de novembro de 1948 no seio de uma família religiosa. Iniciou seus estudos em 1960. Em 1969, ingressou na Universidade de Teerã onde obteve o título de Bacharel em Direito. Ele possui Doutorado em Direito pela Universidade de Glascow, na Grã-Bretanha. Rohani foi ativo politicamente na oposição ao Xá Rehza Pahlevi e participou da política que culminou na Revolução Iraniana de 1979. Durante a Guerra Irã-Iraque foi membro do Supremo Conselho de Defesa. Eleito parlamentar diversas vezes, foi o negociador-chefe para assuntos nucleares durante o governo de Mohammed Khatami (1997-2005). Rohani fala, além de persa, árabe e inglês. Possui intensa atividade acadêmica, sendo autor de mais de 100 livros e 700 artigos.

Rohani foi o único clérigo que obteve permissão para participar das eleições. Sua vitória manifesta uma divergência interna no Irã, entre clérigos que defendem reformas no sistema político e aqueles que entendem que nada deve mudar. O principal representante da ala conservadora era Said Jalili, já que Ahmadinejad não poderia concorrer, pois já havia cumprido os dois mandatos permitidos pela lei.
Rohani não está no extremo do polo reformista. Alguns o consideram, na verdade, alguém "menos conservador". É preciso ressaltar que o Conselho dos Guardiães (uma das principais instituições do país e que escolhe o Líder Supremo) é quem avalia quais candidatos poderão concorrer. Dos quase 700 candidatos que se apresentaram, somente 10 puderam concorrer no pleito. Assim, vários candidatos com uma agenda mais contundente de reformas foram deixados de fora da disputa. Um forte candidato, o reconhecidamente reformista Akbar Hashemi Rafsanjani (presidente do Irã entre 1989 e 1997), foi impedido de concorrer pelo Conselho dos Guardiães, que alegou motivos de saúde e sua idade avançada.
Diante disso, Rohani recebeu apoio de várias figuras reformistas, como Rafsanjani e Khatami. O outro candidato de tendência reformista era Mohammed Reza Aref. Porém, Rafsanjani solicitou que Aref desistisse de concorrer para que o campo reformista votasse em massa em Rohani.

Após a confirmação da vitória, Rohani recebeu mensagens promissoras do presidente norte-americano Barack Obama, que, por meio de seu porta-voz, disse que a vitória de Rohani era um "sinal de esperança"  para o país, tanto em relação às reformas internas, quanto em relação à busca por uma resolução do impasse nuclear.
Contudo, por mais que a eleição de Rohani seja vista como promissora rumo a uma resolução das divergências nucleares, talvez ele não tenha condições de levar adiante seus projetos. O presidente do Irã tem a seu cargo algumas atribuições relevantes. Como Chefe de Governo e como a figura central do Poder Executivo, tem a responsabilidade de representar o país em fóruns internacionais, elaborar a política econômica e formular programas sociais e educacionais. Além disso, o presidente tem alguma voz nas discussões sobre a o grau de permissão de atuação da imprensa. Porém, ele é o segundo na hierarquia do país. Assim, quanto à política externa e a questões de caráter de fundação da República, quem tem a palavra final é o Líder Supremo, atualmente o Aiatolá Ali Khamenei. Por isso, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, manifestou ceticismo com o resultado das eleições e solicitou à comunidade internacional que permaneça com as sanções ao Irã.

A vitória de Rohani é um claro indicativo que os iranianos almejam reformas no sistema político e querem evitar uma escalada militar que poderia resultar em uma guerra, seja contra Israel, seja contra os Estados Unidos. O comparecimento às urnas foi de cerca de 72%, bem inferior aos 89% das últimas eleições. Por outro lado, o pleito foi bem mais tranquilo em relação a 2009. Nesse ano, uma onda de protestos (as maiores manifestações desde a revolução) contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad culminou em violência e centenas de mortos. Os manifestantes alegaram que a eleição fora fraudulenta e que maquinações políticas haviam impedido que o reformista Mir-Hussein Moussavi vencesse. Em 2013, nenhum candidato com a agenda de Moussavi teve permissão de concorrer. De todo modo, a busca por reformas se manteve nas atuais eleições. A escolha de uma figura de tendência reformista, ainda no primeiro turno, representa um claro indicativo da demanda por mudanças entre os iranianos.


O Irã passa por severas dificuldades econômicas, causadas pelas sanções internacionais referentes ao seu programa nuclear. Além dos desafios econômicos, Rohani terá pela frente um combate feroz contra seus adversários que não querem permitir qualquer reforma no regime do país.
Devemos aguardar os próximos acontecimentos para vermos até onde poderá ir o novo presidente.

domingo, 9 de junho de 2013

O que está acontecendo na Turquia?

Atualizado em 17 de junho de 2013

Nas últimas semanas, a Turquia vem passando por intensos combates de rua entre manifestantes e forças do governo. Protestos que se iniciaram em Istambul se espalharam para dezenas de cidades do país, quatro pessoas morreram, outras centenas ficaram feridas e milhares foram presas. Trata-se de um fenômeno inaudito em um país que tem se mantido relativamente estável nos últimos anos e que parecia estar incólume às revoltas que eclodem no Oriente Médio e no Norte da África desde o fim de 2010. Mas, afinal, o que está acontecendo na Turquia?



Embora tenha atraído a atenção da mídia há poucos dias, as manifestações de rua se iniciaram em 1º de maio de 2013, quando um grupo de jovens tentava evitar que o governo derrubasse árvores no Parque Gezi, em Istambul. O projeto do governo é remover o parque para dar lugar a um prédio que irá abrigar um shopping center. Muitos turcos se mostraram contrários ao projeto, afirmando que o parque é uma das poucas áreas verdes remanescentes da cidade. Os manifestantes se mostraram indignados pelo fato de uma área pública ser destruída para dar lugar a um empreendimento comercial privado.
No final de maio, os protestos se intensificaram. No dia 28, cerca de 100 jovens fizeram uma manifestação pacífica, se posicionando no parque para evitar que as máquinas dessem início ao trabalho. No dia 30, o governo enviou a polícia para dispersar o grupo. As forças policiais fizeram uso de gás lacrimogêneo e canhões de água e foi acusada de uso excessivo da força. Rapidamente, os manifestantes pediram auxílio pelas redes sociais na Internet e logo chegaram centenas de pessoas à Praça Taksim, ao lado do parque, local que se tornou o centro das manifestações. A partir de então, os confrontos se espalharam para outras cidades, como a capital, Ankara, e as cidades Izmir e Adana.
Apesar do estopim para as manifestações ter sido a destruição do parque, a extensão dos protestos, assim como a violência desencadeada com a tentativa da polícia em dispersar os manifestantes, indicam que algo mais profundo está por trás desse fenômeno.
Os manifestantes crescentemente vêm fazendo duras críticas ao governo do Primeiro Ministro Recep Tayyip Erdogan (lê-se "er-do-wan"). Eles alegam que Erdogan está se tornando cada vez mais autoritário, não levando em consideração a vontade da população em diversos projetos. Vale dizer que uma rua importante próxima ao Parque Gezi foi totalmente alterada nos últimos anos, onde prédios antigos foram derrubados para dar lugar a casas luxuosas e caros centros comerciais. Além disso, Erdogan é acusado de querer "islamizar" o país, ao aprovar leis que contrariam os costumes seculares de grande parte da população turca, como a que proíbe a publicidade de bebidas alcoólicas e limita o horário de funcionamento de lojas que vendem bebidas até às 22h. Essa lei foi aprovada no final de maio de 2013.
Uma das demandas dos manifestantes é a convocação de novas eleições, o que foi prontamente rejeitado pelo governo.
Erodgan está no poder desde 2003, pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento, um grupo com orientações islamistas. Foi reeleito em 2011, porém com uma votação pouco acima dos 50%. Muitos daqueles que votaram no partido de Erdogan anteriormente, especialmente por causa de sua política econômica, ultimamente têm escolhidos outros partidos, afirmando que Erdogan tem se tornado cada vez mais autoritário e se aproximado de grupos muçulmanos conservadores.
O Primeiro Ministro recusa totalmente a ideia de que esteja ocorrendo uma "Primavera Turca" e acusa os partidos de oposição de estarem incitando as pessoas aos protestos para obterem ganhos políticos. Com efeito, muitos grupos de esquerda e nacionalistas se juntaram aos protestos, mas as manifestações tiveram início entre jovens ativistas, agindo individualmente, e grupos secularistas não necessariamente ligados a algum partido político.
A Turquia é apresentada internacionalmente como um experimento de sucesso de secularismo no Oriente Médio. Porém, os recentes acontecimentos no país têm despertado preocupação entre os parceiros internacionais. O Presidente norte-americano Barack Obama criticou as ações do governo como excesso de força. Tal declaração é de suma importância, pois os Estados Unidos são os principais aliados da Turquia. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial,  Washington tem um interesse especial no país. Durante a Guerra Fria, a proximidade se dava em função do perigo soviético. A Turquia é integrante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Agora, nesse início de século XXI, os Estados Unidos veem na Turquia um estabilizador do Oriente Médio e um parceiro na luta contra o terrorismo. 

O Primeiro Ministro demandou fortemente que os protestos cessassem e que a ordem fosse restabelecida. Para isso, mandou as forças de segurança para dispersar as multidões nas ruas. Erdogan reuniu-se com manifestantes para ouvir duas reivindicações. No entanto, o acordo não foi obtido e, em 15 de junho, o Primeiro Ministro deu uma ordem para a polícia "limpar" a Praça Taksim (ocupada pelos manifestantes havia duas semanas). A confrontação foi grave, houve várias pessoas feridas e presas. No dia seguinte, Erdogan foi aclamado por uma multidão de apoiadores. Em comunicado ao país, solicitou que os manifestantes não voltassem à praça.
Contudo, as manifestações têm continuado. Resta saber quem, no fim das contas, irá vencer essa queda de braço ou se algum tipo de compromisso será alcançado entre as partes.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

10 anos da Guerra do Iraque - 2ª parte

Intervenção norte-americana e a falência do Estado iraquiano (2003-2013)

Após a invasão norte-americana em 2003, o Iraque entrou em estado de caos. Após o otimismo inicial com a rápida vitória militar, o que imperou foi a violência e a desestruturação do Estado iraquiano.



Assim que o regime foi derrubado, iniciou-se uma violenta insurgência contra as tropas lideradas pelos Estados Unidos, marcada pela utilização de ataques suicidas e carros-bomba, além de ataques entre os próprios iraquianos, em uma luta sectária que permanece até hoje. Até mesmo a ONU foi atacada. O pior atentado contra a ONU ocorreu em agosto de 2003, quando uma bomba explodiu no quartel-general da organização, matando o Representante Especial das Nações Unidas para o Iraque, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
O auge do terrorismo no Iraque foi em 2006. Diante disso, as tropas norte-americanas foram elevadas para 170 mil soldados. A partir de então, as tropas norte-americanas, agora comandadas pelo General David Petraeus, realizaram várias operações militares para desbaratar os grupos insurgentes, obtendo ganhos consideráveis no terreno, o que provocou o declínio da violência a partir de 2007. No entanto, os ataques não cessaram completamente e nos anos subsequentes continuamos a ver episódios de atentados que matam dezenas de pessoas em ruas, mercados e mesquitas.
Os números da guerra indicam a gravidade da situação no Iraque. Foram cerca de 5 mil soldados norte-americanos mortos e mais de 30 mil feridos. Já entre os iraquianos, estatísticas indicam que o número de mortos passa de 100 mil. Por outro lado, para conter a violência, as tropas norte-americanas protagonizaram episódios graves de tortura e maus-tratos a prisioneiros iraquianos, como o caso ocorrido na prisão de Abu-Ghraib, que produziu uma série de protestos ao redor do mundo.
Assim, ao longo desses 10 anos, o que vimos foi o fracasso dos objetivos declarados pelo Presidente norte-americano George W. Bush (2001-2009) ao invadir o Iraque. A democracia, embora formalmente instalada, com um parlamento em funcionamento, é frágil e exposta às divisões religiosas e étnicas. O Iraque, ao invés de se tornar um ator relevante e vetor de estabilização regional, virou um local onde terroristas conseguem atuar com facilidade e é fonte de instabilidade para outras regiões do Oriente Médio. A al-Qaeda, até então fraca entre os iraquianos, fincou posição no país, com o surgimento de diversos grupos inspirados pela organização liderada por Osama bin Laden, dentre eles o grupo intitulado "al-Qaeda no Iraque". Além disso, o objetivo de destruir as armas de destruição em massa do Iraque tornou-se irrelevante quando vieram à tona informações que desmentiam completamente a existência de tal arsenal.
A captura de Saddam Hussein, em dezembro de 2003. foi certamente uma vitória para Bush, que conseguiu sua reeleição em 2004. No entanto, politicamente o governo do Republicano se enfraquecia, em grande parte devido às falhas na condução da guerra - e por conta dos gastos com a operação militar. Com isso, em 2006, os Democratas venceram as eleições para o Congresso. Pouco antes, o Secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, renunciou, tendo sido severamente criticado pelo pífio gerenciamento da guerra.
Com efeito, houve diversas críticas à estratégia norte-americana no período pós-invasão. Ao invés de passar o poder político diretamente para os iraquianos, o governo dos Estados Unidos criou uma Autoridade de Ocupação, fazendo emergir uma séria oposição da grande maioria dos iraquianos - população que os norte-americanos esperavam agradar derrubando a ditadura de Saddam Hussein. Além disso, analistas criticam o desmantelamento do Exército iraquiano e a expulsão de importantes figuras do Partido Ba'ath da política e da vida pública, o que desestruturou o Estado iraquiano por completo.
Somente em junho de 2004, mais de um ano após a derrubada do governo de Saddam Hussein, os norte-americanos passaram o poder político para os iraquianos. Em 2005, houve eleições para um parlamento provisório. Os xiitas venceram o pleito, boicotado pelos sunitas. No final do ano, foi aprovada uma nova constituição.
Em janeiro de 2006, ocorreram novas eleições parlamentares. Novamente os xiitas venceram e os sunitas boicotaram. Decorrente disso, houve um impasse político no Iraque. Os norte-americanos tentaram de todas as formas aplacar as diferenças entre as diferentes comunidades. Após muitas negociações, o xiita Nuri Kamal al-Maliki foi indicado Primeiro-Ministro. Foi a primeira vez que os muçulmanos xiitas iraquianos, a maioria da população, chegaram ao poder no país.
No entanto, a solução para o impasse político nunca se obteve plenamente. A cisão entre xiitas e sunitas se agravava em torno do poder político, e as contendas entre árabes e curdos se mantiveram acesas no norte do país.
A luta entre xiitas e sunitas pelo controle político se agrava a cada dia. Em 2010, sob pressão americana, Nuri al-Maliki tentou formar um governo de união nacional, que englobasse as várias comunidades do país. Contudo, Maliki é acusado de usar o poder para perseguir oponentes e para concentrar maiores poderes. O episódio mais recente foi quando Maliki acusou o vice-presidente, o sunita Tariq al-Hashemi, de estar por trás de atentatos terroristas contra a população xiita e emitiu uma ordem de prisão contra ele. Hashemi nega todas as acusações e diz que Maliki usou esse pretexto para afastá-lo do governo. Hashemi se refugiou em Istambul. Porém, antes disso, ele se refugiou em Erbil, cidade considerada a capital do Curdisão iraquiano. Dali ele declarou sua oposição a Maliki e o acusou de autoritarismo.
Esse episódio acirrou as animosidades entre os curdos e o poder central em Bagdá. Após a invasão, os curdos obtiveram grande autonomia no norte do país - inclusive possuindo suas próprias forças de segurança. Assim, o Iraque tem oficialmente dois exércitos: um leal a Bagdá e um comandado pelos curdos. Diante disso, como o Curdistão tem sua própria força de segurança, Maliki não pode enviar o exército para prender Hashemi.
A relação entre árabes e curdos tem sido péssima. Os curdos adotaram políticas no pós-invasão para reverter a política de Saddam Hussein de povoar o norte do pais com população árabe. Assim, muitos curdos defendem a transferência da população árabe para o Sul. Confrontos são recorrentes, centrados principalmente na cidade de Kirkuk. Além disso, os políticos curdos têm prestado pouca ou nenhuma conta ao governo de Bagdá sobre suas relações com exterior, como quando assinaram um contrato de concessão de petróleo à empresa Exxon e a uma empresa turca, sem o consentimento do governo de Maliki.
Tudo isso impede que os Estados Unidos tenham uma parceria efetiva com o Iraque.
Um outro grave problema para os objetivos estratégicos norte-americanos no Oriente Médio tem sido a aproximação do governo iraquiano com o Irã. Pela primeira vez há a possibilidade de diálogo entre os dois países, pois ambos são governados por xiitas. O governo de Nuri al-Maliki tem sido acusado de permitir que o Irã contorne as sanções internacionais por causa de seu programa nuclear através do Iraque (Ver Programa nuclear do Irã). Além disso, o governo de Maliki permitiu que uma milícia apoiada pelo Irã atue legalmente no país. Com efeito, os Estados Unidos nunca puderam contar com o apoio da totalidade dos xiitas do Iraque. Uma das mais fortes fontes de oposição aos Estados Unidos no período pós-invasão foi o chamado Exército Mahdi, liderado pelo clérigo xiita Moqtada as-Sadr. Assim, os Estados Unidos temem a formação de um "arco xiita" anti-americano, formado pelo Irã, Iraque e pelo grupo libanês Hizbollah.
Agora, após as revoltas eclodindo no Oriente Médio, tal situação está ainda mais complexa, pois mesmo os grupos que antes eram pró-americanos estão criando laços com o Irã. O caso mais emblemático na aproximação dos governos do Iraque e do Irã é a posição  de ambos quanto ao conflito na Síria. O governo de Nuri al-Maliki teme que uma vitória dos sunitas na Síria possa fortalecer os sunitas iraquianos. Teme ainda que ambos os grupos sunitas possam criar um front unificado para derrotar os governos de Damasco e Bagdá. Por conta disso, o Iraque tem permitido que o Irã use seu território para fornecer armas para Bashar al-Asad, gerando a hostilidade de países aliados dos Estados Unidos, como Arábia Saudita e Turquia (ver A internacionalização dos confrontos na Síria).


Presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad (esq.), e o Primeiro-Ministro do Iraque, Nuri al-Maliki

Portanto, os Estados Unidos têm diante de si um complexo arranjo geopolítico no Oriente Médio, pois há um racha claro entre seus aliados e um governo em que os Estados Unidos estão lutando para manter a influência, afastando-o de Teerã.
Toda essa situação se tornou mais complexa quando em dezembro de 2011 os Estados Unidos encerraram oficialmente as operações no Iraque, uma promessa de campanha de Barack Obama. Ou seja, agora os iraquianos estão por si mesmos. No entanto, a estabilidade tão sonhada no Iraque não veio. Atentados a bomba, assassinato de inocentes e as rivalidades políticas ainda são a regra no país. Os Estados Unidos, às voltas com seus graves problemas econômicos, não podem mais assumir o fardo de "pacificar" o Iraque.
Enfim, as forças liberadas pela invasão norte-americanas ainda estão muito vivas e não há, no curto prazo, prospectos de uma maior estabilização do Iraque.

Ver também:
10 anos da Guerra do Iraque - 1ª parte
O sombrio horizonte do Iraque
A internacionalização dos confrontos na Síria

sexta-feira, 5 de abril de 2013

10 anos da Guerra do Iraque - 1ª parte

História do Iraque (1920-2003)

No dia 20 de março de 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque para derrubar o regime de Saddam Hussein. Em uma ação avassaladora, fruto de uma enorme disparidade militar e tecnológica, a vitória nos campos de batalha foi alcançada rapidamente. No dia 1º de maio, pouco mais de 1 mês do início das operações, a missão de derrubar o regime estava completa.
Agora, dez anos após o início das operações militares, cabe relembrar alguns importantes aspectos dessa guerra.



A invasão do Iraque fez parte da chamada "Guerra ao Terror", declarada pelo ex-presidente norte-americano George W. Bush (2001-2009), como resposta aos atentados de 11 de setembro de 2001, cometidos pela rede terrorista Al-Qaeda. O primeiro alvo da guerra fora o Afeganistão, onde os Estados Unidos lideraram uma coalizão para derrubar o governo dos talibãs, grupo radical que segue uma interpretação extremista do Islã e impunha à população afegã um conjunto de implacáveis prescrições de comportamento na vida cotidiana. O Afeganistão foi o primeiro país a ser invadido com base na Guerra ao Terror, no final de 2001, por ser o local onde estava abrigada a Al-Qaeda. 
Contudo, o Iraque foi invadido por outros motivos. Embora tenha afirmado inicialmente que havia conexões entre Saddam Hussein e a Al-Qaeda, o governo dos Estados Unidos alegava principalmente que Saddam Hussein era um risco à segurança internacional, por conta da suposta existência de armas de destruição em massa. Além disso, os Estados Unidos empreenderam essa ação militar afirmando que o objetivo era reconfigurar politicamente o Iraque, instalando a democracia no país.
Muitos esperavam que, uma vez instalada, a democracia colocaria o Iraque no caminho do desenvolvimento econômico e social e que o país passaria a ser um ator internacional responsável e parte do esforço internacional para se obter a segurança regional no Oriente Médio.
Contudo, nesses dez anos, o Iraque viveu crises intermináveis e continua a ser um país extremamente instável. Isso tem diversas causas, como a superficialidade da implantação de um regime parlamentar por atores externos, a complexidade étnica e religiosa do país e a própria história do Iraque.


A região que hoje é o Iraque fez parte do Império Turco-Otomano entre 1534 e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A região era conhecida como Mesopotâmia (nome de origem grega que significa "Entre rios", pois a principal parte da região ficava entre os rios Tigre e Eufrates). Com a dissolução do Império Otomano após a Primeira Guerra, a Mesopotâmia foi administrada pela Grã-Bretanha, sob um sistema de Mandato conferido pela Liga das Nações. Porém o país tinha um rei. Os britânicos instalaram no trono do Iraque o Príncipe Faisal, que fora aliado da Grã-Bretanha durante a Primeira Guerra. Os britânicos haviam prometido independência aos árabes se estes lutassem contra os otomanos. No entanto, França e Grã-Bretanha assinaram o acordo Sykes-Picot, em 1916, dividindo o Oriente Médio entre si. Assim, as fronteiras do Iraque foram delineadas no pós-guerra de forma totalmente artificial, seguindo os interesses britânicos e franceses no Oriente Médio.
O Iraque (nome da região em árabe) foi fundado oficialmente em 1920 pela Grã-Bretanha, reunindo as províncias de Mossul, Bagdá e Basra. Em 1932, o país se tornou independente sob um regime monárquico. Desde então, o país tem em seu interior uma situação explosiva. Reúne dentro da mesma fronteira grupos étnicos e religiosos adversários: ao norte, há os curdos*, ao sul, estão os xiitas**; e no centro do país, está a maior concentração de sunitas**. O conflito entre essas comunidades nunca foi resolvido satisfatoriamente e até hoje causa violência no país, como veremos mais adiante.
Após a independência, os britânicos continuaram a exercer grande influência no país, devido a um acordo assinado e 1930, que firmava uma aliança militar entre as duas partes. Posteriormente, na década de 1950, foi fundado o Pacto de Bagdá, uma aliança militar ainda mais proeminente, que contava com grande influência britânica. O objetivo do pacto era conter a expansão do comunismo pelo Oriente Médio. Além disso, a Grã-Bretanha contava com importantes concessões de petróleo, explorada sprincipalmente pela empresa Iraq Petroleum Company - IPC.
Para muitos iraquianos, a relação entre Iraque e Grã-Bretanha era um colonialismo disfarçado. Muitos políticos, militares, intelectuais e líderes populares reagiram à essa situação em diversas situações. Na década de 1930 e 1940, houve várias tentativas de golpe de Estado no país, levadas adiante por militares descontentes que tinham como meta derrubar um regime que consideravam fraco e subserviente aos interesses britânicos. Contudo, todas essas tentativas falharam.
No entanto, em 1958, a monarquia foi derrubada por um grupo de militares que se intitulava "Organização dos Oficiais Livres" (mesmo nome do grupo que derrubara a monarquia do Egito em 1952). Além das questões propriamente iraquianas - a influência britânica no país e problemas fronteiriços com o Kuwait - o novo regime prometia a luta incansável contra Israel.
Em 1968, um novo golpe instalou o partido Ba'ath no poder. O Ba'ath (Renascimento), cujo nome completo era "Partido Socialista Árabe para o Renascimento", tinha como fundamentos ideológicos o combate ao colonialismo, a inspiração em valores islâmicos sunitas (embora fosse marcadamente secular), a centralização política e o pan-arabismo.
Ao longo da década de 1970, Saddam Hussein ganhou proeminência no interior do partido Ba'ath e em 1979, assumiu a presidência do Iraque. A partir de então, Saddam passou a controlar a população de forma autoritária, adotando uma postura extremamente repressiva contra seus opositores e realizando massacres cruéis contra curdos e xiitas.
No mesmo ano que Saddam ascendeu ao poder, uma revolução depôs a monarquia no Irã. Clérigos muçulmanos xiitas assumiram o controle do país e criaram a República Islâmica do Irã (Ver Programa nuclear do Irã). Um ano depois, Irã e Iraque estavam em guerra. A causa imediata do confronto foram contendas fronteiriças, mas os principais motivos da guerra foram a disputa por uma proeminência de poder na região e a diferença de fundamentos políticos dos dois Estados - o Iraque um regime secular e pan-árabe e o Irã um regime islâmico e aferrado às tradições persas.
Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), os Estados Unidos apoiaram Saddam Hussein. Para os norte-americanos, o Iraque, governado por um regime secular, era um aliado estratégico contra a expansão da revolução islâmica pelo Oriente Médio, que poderia atingir seus principais aliados - Israel e Arábia Saudita. Os Estados Unidos pressionaram intensamente o Irã a aceitar um cessar-fogo, o que foi negado. No entanto, quando cargueiros repletos de petróleo foram afundados no Golfo Pérsico, o que desequilibrou os preços do petróleo e atingiu em cheio os interesses econômicos norte-americanos, Washington decidiu agir. Um cruzador norte-americano derrubou um avião iraniano com 290 passageiros a bordo, forçando o Irã a aceitar os termos de cessar-fogo. O apoio ao Iraque era tão sólido que o governo norte-americano fechou os olhos para o ataque com armas químicas perpetrado por Saddam Hussein contra os curdos, em março de 1988, na cidade de Halabja, no norte do país.
Após o fim da guerra contra os iranianos, o Iraque passou a ser a mais importante potência regional, depois de Israel, o que deu a Saddam Hussein motivos para se sentir extremamente fortalecido.

Apesar de empregar uma retórica anti-israelense inflamada e as tensões entre Iraque e Israel fossem constantemente tensas (em 1981, Israel destruiu um reator nuclear em uma usina próxima a Bagdá), o Iraque se constituiu como um importante aliado regional para os norte-americanos contra a ameaça iraniana. Porém, na década de 1990, o Iraque deixaria de ser um aliado para se tornar um dos mais ferrenhos adversários dos Estados Unidos no Oriente Médio, quando o Iraque invadiu o Kuwait.
As reivindicações iraquianas ao território kuwaitiano não eram novas. Em 1961, quando a Grã-Bretanha concedeu independência ao Kuwait, líderes iraquianos já haviam se manifestado afirmando que o território era parte do Iraque e ameaçaram invadir o pequeno país. No entanto, os britânicos estacionaram tropas ao longo da fronteira kuwaitiana e os iraquianos desistiram.
Após o fim da Guerra contra o Irã, o Iraque estava extremamente endividado e as monarquias petrolíferas do Golfo lhe recusavam empréstimos - um dos principais credores do Iraque era exatamente o Kuwait. Para remediar sua situação, Saddam desejava negociar com o governo kuwaitiano a anistia de uma parte da dívida. Além disso, Saddam defendia no âmbito da OPEP - Organização dos Países Produtores de Petróleo - que os níveis de produção petrolíferas permanecessem rebaixados no Oriente Médio para que o preço do produto continuasse elevado. O Kuwait era contrário a essa postura. Ao contrário, defendia a expansão de 50% da produção petrolífera. Diante dessas divergências, a hostilidade entre os dois países se acentuou. A causa imediata da invasão foi a alegação do Iraque de que o Kuwait havia violado as fronteiras iraquianas e estava roubando petróleo de uma refinaria próxima à linha divisória entre os dois países.
Em 2 de agosto de 1990, o Iraque invadiu o Kuwait com 100 mil soldados e 700 tanques. Rapidamente,  as forças iraquianas dominaram completamente o pequeno país. Derrotada, a família real kuwaitiana se refugiou na Arábia Saudita.
Prontamente, a comunidade internacional se manifestou contra a invasão. O Conselho de Segurança da ONU emitiu uma resolução, que não fora vetada pela União Soviética, determinando a imediata retirada iraquiana.
Em 15 de janeiro de 1991, iniciou-se a Guerra do Golfo (agora chamada por alguns de "Primeira Guerra do Golfo"). Uma coalizão liderada pelos Estados Unidos iniciou a operação "Tempestade no Deserto", promovendo ataques aéreos a alvos iraquianos. Saddam respondeu queimando os poços de petróleo no Kuwait e lançando mísseis contra os aliados norte-americanos na região, especialmente contra Israel. Porém, no fim, Saddam foi forçado a recuar e se retirou do Kuwait.

Poços de petróleo incendiados pelos iraquianos no Kuwait

No entanto, o conflito não terminou. Saddam continuou no poder, pois o presidente norte-americano de então, George H. Bush (1989-1993), se recusou a marchar até Bagdá e derrubar o regime Ba'ath. No restante da década de 1990, o Iraque foi exposto a severas sanções econômicas, que empobreceram o país fortemente. Um alívio a essa situação foi a criação, em 1995, do programa "Petróleo-por-Alimento", patrocinado pela ONU, em que o Iraque poderia vender petróleo e, em troca, adquirir alimentos, medicamentos e outros produtos para necessidades humanitárias (programa que, posteriormente, seria alvo de um escândalo de corrupção).
A hostilidade entre Estados Unidos e o Iraque de Saddam Hussein permaneceram agudas desde o fim da Guerra do Golfo. Os atentados de 11 de setembro de 2001 adicionaram um componente central para uma mudança de rumo nas relações entre os dois países.

Ver também:
Notas

* Os curdos são um povo etnicamente distinto dos árabes, que habitam uma região que engloba o norte do Iraque, nordeste da Síria, o leste da Turquia e regiões montanhosas no oeste do Irã - foram deixados sem Estado nas conferências pós-Primeira Guerra Mundial e até hoje lutam por estabelecer um Estado próprio nessa região, que muitos chamam de "Curdistão".

** A divisão entre xiitas e sunitas teve origem nos primórdios do Islã, após a morte do Profeta Maomé. A rivalidade se iniciou de um racha entre aqueles que acreditavam que o sucessor de Maomé deveria ser um membro de sua família, e que apoiavam Ali, genro e primo de Maomé (os xiitas) e aqueles que entendiam que qualquer um que seguisse os corretos preceitos do Islã poderia ser sucessor do Profeta (os sunitas).