Diariamente, somos bombardeados por informações vindas de todos os lados. Recebemos notícias, indicadores, análises, e prognósticos que chegam dos cinco continentes. Apesar da enormidade de informações, quase sempre nos vemos incapazes de compreender o que ocorre. Este blog pretende ser uma contribuição para entender esse mundo complexo. É claro, não tem a pretensão de ser um oráculo, que dê conta de tudo o que ocorre no mundo, mas uma busca incessante de entender o que acontece à nossa volta.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O que está acontecendo na Síria?

Atualizado em 22 de agosto de 2013

              
Desde março de 2011, somos apresentados a cenas chocantes vindas da Síria quase diariamente. Vemos as forças armadas do país comandado por Bashar al-Asad atacando subúrbios de cidades populosas; vemos imagens de rebeldes armados atacando alvos governamentais; recebemos estatísticas que indicam um crescente número de mortos; vemos imagens de explosões de casas e prédios e posteriormente imagens de pessoas mortas ou feridas, muitas das quais são crianças.
Mas, afinal, o que está acontecendo na Síria?
O que está acontecendo na Síria é mais um episódio da série de revoltas que está abalando o Norte da África e o Oriente e Médio e que vêm recebendo o nome de “Primavera Árabe” na grande mídia. São revoltas populares clamando a renúncia de ditadores ou exigindo reformas democráticas.
Em cada parte, o rumo dos acontecimentos tem sido diferente, mas em alguns países, o movimento teve sucesso. O primeiro episódio ocorreu na Tunísia, onde uma série de manifestações levou, em janeiro de 2011, à renúncia do ditador Zine al-Abidine Ben Ali, que ocupou o poder no país durante 23 anos.
A segunda vítima foi o ditador egípcio Hosni Mubarak, há trinta anos no poder, que renunciou em fevereiro de 2011 após uma série de protestos e combates ocorridos na praça Tahrir (Praça da Libertação), na capital, Cairo. Em seguida, foi a vez de Muamar al-Kadafi, ditador que ocupou o poder na Líbia desde 1968, e que foi derrubado do poder no final de 2011 pelos revoltosos, ajudados por bombardeios aéreos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Após a tomada de poder pelos opositores, Kadafi tentou fugir do país, mas foi encontrado e morto.
Protestos e episódios de violência também ocorreram no Iêmen, na Jordânia e em alguns Estados do Golfo.
Desta vez, a pressão popular tem se feito sentir contra o presidente da Síria Bashar al-Asad.
Asad ocupa o cargo de dirigente máximo na Síria desde o ano 2000, em virtude do falecimento de seu pai, Hafiz al-Asad, que ocupava o cargo desde 1970. Portanto, a família Asad está no poder na Síria há 42 anos.
Os problemas começaram em março de 2011, quando um grupo de crianças e adolescentes pichou palavras de protesto em muros na cidade de Deera, no sul do país, inspirados pelas revoltas na Tunísia e no Egito. Forças de segurança detiveram os jovens e surgiram acusações de que eles teriam sido torturados. Nos dias que se seguiram, centenas de pessoas tomaram as ruas de Deera exigindo a libertação dos jovens e demandando reformas democráticas. A resposta governamental não demorou. Tropas foram enviadas à cidade e a repressão foi violenta. Primeira contagem: 4 mortos.
No dia seguinte, sucederam-se manifestações em várias partes do país, principalmente em Homs, cidade com grande contingente de opositores de Bashar al-Asad.
A partir de então, a revolta se espalhou com grande rapidez. A resposta do governo foi a mesma: artilharia pesada contra os bairros e cidades de oposição. Os meses foram se passando e o que era, em princípio, um movimento pacífico de protestos por reformas democráticas, tomou a forma de uma revolta armada com o objetivo de derrubar o presidente.


Soldados que desertaram do exército se juntaram a grupos que obtiveram armas por conta própria e formaram o chamado “Exército Livre da Síria”. Armados, começaram a atacar as tropas do governo. Bashar al-Asad os chamou de terroristas e suas campanhas militares desde então têm sido justificadas como medidas para derrotar o “terrorismo”. Asad tem enviado armas pesadas e tem ordenado ataques sucessivos a bairros apinhados de civis. O resultado tem sido milhares de mortos, em grande parte civis.
A repressão violenta do governo gerou indignação ao redor do mundo. Estados Unidos e União Europeia agiram para pôr fim ao massacre. Tomando por base uma proposta da Liga Árabe, recorreram à Organização das Nações Unidas (ONU) e apresentaram um projeto de resolução no Conselho de Segurança exigindo a renúncia de Asad. Porém, Rússia e China, com interesses na Síria, vetaram a proposta, que, consequentemente, não pôde entrar em vigor.
Um grupo político também se formou no exílio. Opositores de Asad que vivem na Europa formaram o “Conselho Nacional Sírio”. O grupo buscou ser reconhecido internacionalmente como o governo legítimo da Síria, mas era sempre marcado pela fragmentação e pelas divergências internas. Mas em 11 novembro de 2012, os opositores sírios se reuniram em Doha, no Qatar, com o objetivo de unificar a oposição a Bashar al-Asad. Como resultado das negociações, fundaram a Coalizão de Oposição Síria. A Liga Árabe prontamente reconheceu a nova organização como a única representante do povo sírio e como entidade legítima para governar a Síria. Em 13 de novembro, a França se tornou o primeiro país ocidental a reconhecer a nova organização como governo da era pós-Asad. 
Porém, no terreno diplomático, os obstáculos a serem superados parecem quase intransponíveis. No início de 2012, o ex-secretário-geral da ONU, Koffi Annan, foi enviado pelas Nações Unidas à Síria na tentativa de mediar o conflito. Asad foi duro ao afirmar que somente após a derrota dos “terroristas” poderia haver negociação.
Diante das infrutíferas tentativas de mediar o conflito, Annan renunciou ao seu papel de enviado especial. Em 17 de agosto de 2012, o argelino Lakhdar Brahimi, membro de uma organização interestatal que trabalha em prol da paz em conflitos ao redor do mundo, foi indicado como substituto de Annan. Brahimi disse ao chegar à Síria que o conflito era um "perigo para o mundo". Lakhdar Brahimi se encontrou com Bashar al-Asad em 15 de setembro de 2012, uma trégua foi anunciada, mas não cumprida. Ocorreram algumas conferências dos denominados "Amigos da Síria", porém também foram infrutíferas.
A última tentativa de mediação foi a convocação de uma conferência para junho de 2013, proposta aceita pelos Estados Unidos e pela Rússia. Contudo, segundo Brahimi, nem o governo, nem os rebeldes, estavam "preparados para comparecer".
Nos últimos meses, o conflito tem se tornado cada vez mais encarniçado, com a ocorrência de atentados que causam a morte de civis, que o governo alega serem cometidos pelos rebeldes, e com a atuação brutal das forças do governo, que praticam atos de repressão violenta em áreas opositoras.
Além disso, o conflito chegou ao centro do poder político e econômico. Desde meados de 2012, frequentes confrontos têm ocorrido nos subúrbios de Damasco, em uma ofensiva para atingir as posições da elite dirigente síria.  Os rebeldes conseguiram ocupar posições estratégicas em vários pontos da capital. Além disso, iniciaram uma luta encarniçada em diversos bairros de Alepo, centro econômico do país.
Os ataques dos rebeldes têm se intensificado nos últimos meses, quando passaram a receber armamentos pesados, inclusive baterias anti-aéreas. Paralelamente a isso, grupos extremistas, que entram no país vindos de outras áreas, como Iraque e Líbano, têm realizado atentados suicidas próximas ao centro do poder.
Além disso, a crise na Síria tem provocado implicações políticas no círculo interno de governo, com a deserção de importantes figuras próximas a Bashar al-Asad. O principal desertor foi o General Manaf Tlas,  que abandonou Asad em julho de 2012. Tlas, até então aliado e amigo de Asad, era comandante da Guarda Republicana, órgão que é um dos sustentáculos do poder da família Asad. Outros militares de alta patente também desertaram.
Com a escalada da violência, uma enorme onda de refugiados sírios se formou. A maioria dos refugiados se abrigou na Turquia, Jordânia e Líbano, em áreas próximas à fronteira com a Síria. Na Turquia, escaramuças entre militares turcos e refugiados sírios têm ocorrido.
Desde o fim de 2012, a luta contra o governo indica uma atuação mais contundente de grupos extremistas islâmicos, como mostram recorrentes atentados desse tipo. O principal grupo extremista atuando em solo sírio é o an-Nusra, que afirma ter laços com a al-Qaeda.
Além disso, grupos externos agem na Síria. Em meados de 2013, quando houve o embate entre as forças armadas do governo e os rebeldes se deu na estratégica cidade de al-Qusayr, houve uma atuação incisiva do Hizbollah, grupo xiita libanês aliado de Bashar al-Asad e do Irã.
Em agosto de 2013, o principal grupo de oposição, a Coalizão de Oposição Síria, afirmou que um ataque com armas químicas havia deixado pelo menos 1.300 pessoas mortas em um subúrbio de Damasco controlado pelos rebeldes. O governo nega tal ataque. Nesse mesmo momento, uma comissão da ONU está na Síria para averiguar denúncias de uso de armas químicas pelo governo e pelos rebeldes.
Na verdade, nos últimos meses, têm crescido os indícios de que armas químicas estão sendo utilizadas. O Presidente Barack Obama afirmou, há alguns meses, que se Asad utilizasse esse arsenal, teria "cruzado a linha vermelha", indicando que poderia recorrer a uma intervenção armada. Contudo, fontes de instituições internacionais têm  afirmado que o governo tem utilizado o gás sarin contra rebeldes, mas nenhuma medida internacional foi adotada. No início de junho de 2013, a França acusou o governo de Asad de atacar os rebeldes com o gás sarin. Em agosto, depois do suposto ataque com gases venenosos, o governo francês afirmou que a comunidade internacional deveria responder "com força".
O Conselho de Segurança das Nações Unidas se reuniu depois do ataque, mas nenhuma ação foi decidida.
Esse episódio, se de fato for confirmado o uso de gases venenosos (sarin e gás mostarda), será um episódio de aprofundamento da crise humanitária e um dos mais cruéis massacres contra a população civil.

Agora, dois anos e meio após o início da "Primavera na Síria", estatísticas indicam que mais de 100 mil pessoas morreram e que cerca de 2 milhões de sírios tenham se tornado refugiados. Até o momento, apesar das sucessivas tentativas de mediação diplomática, a violência continua dando o tom dos acontecimentos.

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34 comentários:

  1. Excelente texto! Muito bem escrito e esclarecedor!

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    1. concerteza. isso mostra oque esses povos estão passando
      muitas pessoas não estão nem ai não é em nosso pais mesmo.
      mais só a partir de um texto assim pra entendermos, que o mundo é assim cheio de guerras, mais também de pessoas que morrem por justiça e por honra a sua pátria!

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  2. Parabéns pelo post! Realmente excelente!

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  3. Texto excelente. Sintético, esclarecedor, rico e com liguagem super acessível. Foi muito útil para os alunos de Relações Internacionais.

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  4. Perfeito o texto ...

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  5. Texto excelente!
    Infelizmente o munda ainda age dessa forma, guerras, mortes, revoltas... Sinto que a esperança de um dia todas essas coisas acabarem nunca cheguem.

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  6. Excelente matéria parabéns.

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  7. Nossa muito bom o texto está bem simples de entender oq está acontecendo vc procurou mostrar cada detale..

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  8. Texto Mais que esclarecedor.. Perfeito

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  9. Parabéns pelo texto...
    Tirou todas as minhas dúvidas.
    Obrigado xD

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  10. É incrível como o interesse move as nações. Membros de um Conselho que visa segurança pela e para a nação deixa essa função de lado quando trata-se de conveniência. Enfim, parabéns pelo texto. Muito bom, claro e esclarecedor.

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  11. Muito bom esse texto!

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  12. Parabéns pelo texto. Linguagem clara e objetiva, muito bom!

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  13. Muito bom texto! Escrevo para agradecer pelos esclarecimentos. Ocorre que muitas das vezes, em nossa vida cotidiana agitada, não sabemos o que se passa pelo mundo. Obrigado.

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  14. Parabéns pelo texto!sua forma de escrever desperta nosso interesse pelo tema além de ser simples de compreender.Obrigada

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  15. Adorei! Linguagem simples e objetiva!
    Como não acompanho com frequência os noticiários, as vezes fico meio perdida nos assuntos...
    Obrigada!

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  16. muito bom este texto, nos emsinando as coisas do mundo adorei

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  17. texto parcial, mto ruim e só reproduz o que a mídia reproduz.

    http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=183104&id_secao=9

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  18. otimo adorei tirei todas a minha duvida......
    pena q ainda existem pessoas ma,no mundo.

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  19. Obrigado! me ajudou bastante.

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  20. muito bom voce procurou em todos os casos de oraçao uma palavra clara.Parabens.

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  21. Procurei em diversos sites diferentes e esse foi o site com um texto de facio entendimento e ao mesmo tempo com todos os detalhes que ajudam a esclarecer o caso.Muito obrigada pela obtenção de informação!

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  22. Ainda bem que consegui achar um otimo texto sobre esse assunto antes do ENEM, muito bom mesmo! Queria um texto do mesmo estilo sobre o cessar-fogo no feriado islâmico, que nao foi respeitado e tal, queria entender melhor.

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    1. Olá. Muito obrigado pelo seu comentário. De fato, ainda não tive tempo de atualizar o texto com os últimos acontecimentos. Mas, para dar uma contribuição para dirimir sua dúvida,posso dizer que o Eid Al-Adha significa "Festa do Sacrifício". Nesse feriado, os muçulmanos comemoram a história contida no al-Corão em que Allah determinou que Ibrahim (Abraão)matasse Ismael em sinal de fidelidade. Porém, no momento que Ibrahim se preparava para consumar o fato, Allah o impediu e, em vez de Ismael, Allah ordenou que Ibrahim sacrificasse um cordeiro. Por isso, os fieis muçulmanos sacrificam cordeiros em memória do acontecimento sagrado (a história também está contida na Torah e no Antigo Testamento, mas, nesses dois livros, Deus ordenou que Abraão matasse Isaac e não Ismael).
      O enviado da ONU à Síria, Lakhdar Brahimi, esperava obter uma trégua durante este feriado, tão importante na tradição islâmica. Contudo, os combates continuaram ocorrendo em várias partes do país. O governo permaneceu em seus ataques aos grupos rebeldes e estes continuaram atacando posições do exército governamental. A trégua, na verdade, durou apenas algumas horas e logo foi quebrada. Analistas afirmam que, nesse intervalo, ambos os lados buscaram se reorganizar para continuar a luta e, portanto, a trégua já nasceu comprometida.

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  23. Excelente texto! Muito esclarecedor! Parabéns!
    A linguagem utilizada é muito objetiva. O texto está perfeito.

    Sanou minhas dúvidas referentes ao assunto.

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  24. Aplausos! Sou mais uma a engrossar o couro: Texto esclarecedor, acessível, objetivo. Contribuiu muito com os meus estudos. Muito obrigada!

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  25. AMEIII! Excelente texto, muito claro e sábio!

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  26. Totalmente claro e objetivo !
    me ajudou muito.

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  27. Parabens pelo texto. muito claro,fácil compreensão.obrigado pelo post .

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  28. Parabéns, esclareceu bastante.

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